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A tolerância e os intolerantes

por pedrop, em 20.01.17

Ricardo Araújo Pereira mete mais uma vez os pés pelas mãos: "está na moda ser intolerante com a intolerância – uma ideia arrepiante que, aliás, se rejeita a si mesma". Tendo estado a acompanhar a novelesca história das últimas semanas, com os diálogos e debates que têm decorrido, julgo que neste caso posso dar um esclarecimento necessário face a uma confusão conceptual.

Um ato intolerante é relativo à conduta de outra pessoa. Mas e se esse outra conduta for, ela própria, intolerante (portanto, relativa à conduta de ainda outra pessoa)? Não há um dever de tolerância apenas pelo facto de a conduta objeto de juízo assentar, ela própria, num juízo sobre outra conduta. Tudo depende da fundamentação. Há, é certo, um paradoxo difícil, que pode gerar uma redundância inelutável: A é intolerante com B, porque B é intolerante com A; B é intolerante com A, porque A é intolerante com B. É preciso, por isso, distinguir a intolerância (que nega a tolerância como norma, isto é, que recusa que se possa tolerar o que se considera errado) da "intolerância" de quem recusa a negação da norma (o que, na verdade, não é intolerância) - é a fórmula dada pelo filósofo alemão Rainer Forst. Quem nega a norma de tolerância é que despoleta a situação de intolerância, podendo o outro sujeito não tolerar, depois, essa negação. A intolerância e a não tolerância dessa intolerância não são situações moralmente idênticas. A questão é saber quando é que se nega a norma de tolerância (e, portanto, há um comportamento intolerante), o que exige o estabelecimento dos limites da própria tolerância.

Ora, a tolerância decorre de dois momentos fundamentais: perante o comportamento ou a convicção de outrem, opostos aos valores do agente, este formula um juízo moral negativo (objeção), mas decide que, não obstante, deve respeitar esse comportamento ou essa convicção, não criticar ou, pelo menos, evitar reprimi-los, porque há bons motivos para isso (aceitação). A questão é saber a partir de que momento um comportamento objetável deixa de ser aceitável: seja porque são frágeis os motivos para a aceitação, seja porque a objeção é tão forte que se deve rejeitar o comportamento, embora haja motivos razoáveis para a aceitação (rejeição). Exige-se uma comparação difícil, que depende de fundamentos extrínsecos à própria ideia de tolerância - que não é um conceito autónomo, nem autossuficiente. De qualquer forma, não se pode dizer que o sujeito é intolerante, se, objetando razoavelmente uma conduta de outrem, resolve não a tolerar numa situação em que os motivos para a aceitação eram comparativamente insuficientes - nesse caso, não cabe a um terceiro decidir tolerar ou não tolerar essa decisão (porque nem sequer tem motivos para a objeção inicial). Mas, se o sujeito for, realmente, intolerante (negando a norma de tolerância), é possível, depois, a um terceiro considerar que essa decisão de intolerância não é tolerável - sem que se possa dizer que este último é, necessariamente, intolerante. Tal como no ato de primeiro grau, tudo depende de haver, na comparação entre os motivos de objeção e dos motivos de aceitação, uma conclusão pela rejeição. Quem rejeita o comportamento intolerante pode, hipoteticamente, estar a ser intolerante. Mas é muito difícil: porque a intolerância suscita uma objeção moral forte, sendo improvável que haja motivos de aceitação claramente superiores que exijam que se tolere um ato intolerante.

Do conceito de tolerância assim exposto, resulta outra impressão. Ricardo Araújo Pereira parece escudar-se no paradoxo da "intolerância face à intolerância" para justificar coisas que não são, sequer decisões de intolerância. Alguém que insulte outra pessoa com base na cor não é intolerante - é racista. Intolerante é quem, perante um motivo de objeção fraca e um motivo de aceitação forte a uma prática ou convicção alheias, decide não tolerar essa conduta. Trata-se, portanto, duma rejeição desproporcionada. Isso não ocorre quando não decorre, sequer, duma objeção a uma conduta: a convicção racista não é base para juízos morais sobre a cor de ninguém. Por isso, quem não tolera um racista pode eventualmente ser intolerante, mas não está, em momento algum, a cair num paradoxo de "intolerância face à intolerância". Em bom rigor, o facto de alguém não aceitar alguma coisa noutra pessoa não implica, necessariamente, intolerância (podendo embora ser igualmente nefasto e censurável).

Como reagir perante a intolerância é, de facto, uma situação problemática, podendo discutir-se se deve ser tolerada ou não. Tudo depende do tipo e do grau de intolerância manifestada, bem como dos fundamentos para a tolerar ou não. Qualquer decisão de tolerância depende da situação existente. Importa, ainda, ter em conta que a tolerância pode assumir várias configurações (tolerância passiva, tolerância ativa). Pode ser que um comportamento intolerante, dependendo da sua gravidade, deva ser fortemente criticado sem ser reprimido. E pode ser tolerado de forma permissiva sem que haja uma tolerância entendida como respeito. Mas é um exercício de fuga responder às dificuldades que o tema suscita com uma recusa geral em discutir a intolerância, como se isso fosse tolerante, e com indignação genérica face a qualquer recusa em tolerar a intolerância, sem discutir os fundamentos, como se a decisão de não tolerar a intolerância fosse mais grave do que a própria intolerância.

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publicado às 13:44

O que levou Trump a ganhar?

por pedrop, em 13.11.16

1. As pessoas procuram sempre uma causa para um fenómeno. O que levou Trump a ganhar? Os debates enchem-se de intervenientes nas redes sociais, cada um ficando "procurador" de uma única causa. É sempre bom ter uma certa distância, para quem vê de Portugal. Não gostaríamos de ter americanos a pronunciar-se sobre o nosso sentido de voto com paternalismo ou superioridade. Evito fazê-lo porque não devemos cair nem na ingerência, nem na falsa ideia de que somos eleitores virtuais dos EUA. Trump venceu porque entrou num grupo de estados, numa região que Clinton deveria vencer, sem que esta fosse capaz de ganhar em estados a sul tradicionalmente republicanos, mas à beira de mudar por razões demográficas (Georgia e Arizona). As causas e as ilações a tirar serão relativizadas se, como tudo aponta, Clinton tiver uma vitória significativa sobre Trump no número total de votos, ao contrário do que acontece no colégio eleitoral. A questão fica mais circunscrita. Não se poderá dizer que os eleitores fugiram de Clinton, que esta era a pior escolha possível, que os democratas precisam duma revolução interna. Poderá dizer-se que os eleitores não fugiram de Clinton, e que, sobretudo, se distribuíram de forma ineficiente. As causas são sempre várias, mas são também relativas, por muito que, como alguém me dizia, os comentadores procurem sempre conclusões redondas sobre um resultado provocado por detalhes casuais.

Não são alheias à misoginia que sempre há perante uma candidata mulher - mais difícil sendo candidata de esquerda (para uma candidata de direita é mais fácil, porque já tem ao seu lado o eleitorado onde costuma haver mais misoginia). E não são alheias ao racismo e à xenofobia instigados pelo candidato Trump. Há quem tente agora dizer que se devia ter silenciado o repúdio a esse discurso, como se alguém indignar-se com a monstruosidade fosse o problema da monstruosidade, não a própria monstruosidade, relativizada, menorizada e até justificada por pretensos defensores da liberdade de expressão. A base de apoio de Trump, os apoiantes estridentes que o projetaram, é certamente xenófoba. Outros viram tudo isso, mas não quiseram saber. É certo que há quem se perca nesta indignação, sem ver além da questão da xenofobia - mas isso não é motivo para a negar de forma tonta, porque existe e está à vista de todos.

A derrota de Clinton vem duma região que tomava por certa - o chamado rust belt, zona industrial no centro-norte, que constituiria a "firewall azul" dos democratas. As razões para a vitória de Trump aí nessa região não serão alheias ao discurso de recuperação de empregos perdidos por outros mais precários - com soluções simples para problemas complexos. Há problemas na globalização, mas o que Trump oferece é pior. Se existe algo de consistente no seu discurso sempre contraditório, falacioso e enganador, é colocar a fonte do problema num inimigo externo, de cor, religião ou língua diferentes. A solução passa sempre por responder a esse inimigo, reprimindo-o ou, no melhor dos casos, ostracizando-o. É um discurso viral, muito difícil de combater, mas que se julgava hoje impossível. Não era impossível, como não é impossível a ascensão de tempos negros na Europa, de recusa do Outro, de negação dos mais básicos deveres de humanidade para com os refugiados, por exemplo. Trump procurou responder aos problemas dessa classe trabalhadora, dando-lhe inimigos incapazes de lhe responder - a China e os mexicanos nas questões económicas, os muçulmanos e os negros nas questões de segurança. Clinton combateu esse discurso, mas não ofereceu o suficiente a essas pessoas numa região que, não obstante, obtivera um apoio importante dos democratas e da própria Clinton no "bailout" da indústria automóvel. E foi demasiado hesitante nas posições sobre os acordos comerciais. 

 

2. Normalmente, quando alguém perde, quem comenta procura inserir todas as suas divergências como causas determinantes da derrota, tenham elas sido efetivamente relevantes ou não. Nestas eleições americanas, vemos muito isso, entre alguma esquerda portuguesa ou entre alguns anti-elitistas, quando Trump é profundamente elitista, sendo também um demagogo. Vemos isso entre aqueles que, por preconceito e misoginia não assumida, criticam em Clinton o que não criticam num homem político - a dureza, o carácter maquiavélico, os negócios. Posso invocar as minhas razões, como português. Gostaria de ver os EUA menos interventivos, quando Clinton pretendia ser uma presidente mais interventiva do que Obama. Nomeadamente, a ideia de exportar a democracia à força continua viva, apesar de ser evidente que não funciona, só servindo para mudar regimes que não constituem qualquer ameaça à paz internacional mas que se mostraram incómodos. Não é assim que se expande a democracia. Trump criticou isto duma perspetiva isolacionista, mas é possível que tenha sido mais uma crítica puramente retórica. Não me parece que tenha sido uma questão determinante para o resultado das eleições americanas. Até porque Clinton teria sido melhor para a defesa dos interesses estratégicos americanos - é das pessoas mais experientes na matéria no país. Trump, visivelmente, não tem condições de o fazer, podendo eventualmente delegar em quem tenha. É uma incógnita, e por isso mesmo poderá dar margem de manobra aos países emergentes, entre os quais a Rússia. No entanto, poderão sair mais fragilizados aliados como a UE, cuja generalidade dos membros integra a NATO. Para quem olha dum país tranquilo como Portugal, é uma questão de perspetiva.

Um problema evidente e concreto de Clinton foi o caso dos e-mails. Abstenho-me de lhe chamar escândalo. Terá havido interferências externas, levando a que e-mails que nem sequer tinham a ver com o caso fossem divulgados em pacotes, submetendo ao escrutínio as conversas internas de campanha de um só lado durante a própria campanha, o que é algo impensável em qualquer país. Como seria em Portugal se um só partido tivesse as conversas privadas dos seus líderes devassadas durante a campanha, em benefício objetivo do adversário? O caso dos e-mails relevante trata, não do seu conteúdo criminoso, mas da forma como foi gerido o sistema informático, eventualmente criminoso por falta de cuidado na gestão de segredos de estado. Houve um viés de confirmação - supunha-se que Clinton seria corrupta e conspirativa; logo, um caso obscuro de e-mails seria um exemplo da corrupção, uma descoberta do ato de conspiração. Trata-se dum elemento que convoca o preconceito em relação às mulheres. É evidente que Clinton tem responsabilidades em ter utilizado um servidor privado, e tudo poderia ter sido evitado. Mas a reação é significativa. Não é por acaso que o evento circunscrito que mais afetou Clinton foi a carta do diretor do FBI sobre o tema a dias da eleição, outro aspeto muito questionável. Por comparação, com Trump, os sucessivos casos foram sendo desvalorizados. Que seria de Clinton se, por exemplo, não divulgasse os rendimentos?

 

3. A possível vantagem significativa de Clinton sobre Trump no chamado voto popular não tem implicações institucionais, mas tem implicações políticas. Se for significativa, a ponto de Clinton ficar apenas abaixo da votação total de Obama em 2008 e 2012, muitas ilações para os democratas que vêm sendo tiradas terão sido precipitadas. O tempo institucional não é o tempo mediático em que se têm asseverado juízos definitivos e sempre substituídos por outros igualmente definitivos. Os eleitores, afinal, não terão fugido de Clinton, e os problemas para os democratas que resultam desta eleição são relativamente circunscritos. Faltaram propostas mais ambiciosas e uma atenção especial à região do rust belt. Embora necessite de "estrelas" políticas, o partido democrata não tem de sofrer uma revolução por causa deste resultado, sendo certo que pode concluir de forma diversa, até pelo choque da derrota. Na verdade, o problema maior que enfrenta resulta, não das presidenciais, onde tem tido votações históricas, mas das legislativas, onde tem sido derrotado sucessivamente. Ao contrário do que vem sendo dito, não acredito que Bernie Sanders se desse melhor contra Donald Trump. 

O candidato vencedor não tem qualidades? É evidente que sim. Trump é carismático e consegue falar com as pessoas comuns, enquanto o discurso dos democratas se tornou demasiado elitista. Há aspetos de Trump que têm piada, que geram empatia, e não é problema dizê-lo - se não se deixar de repudiar o que ele defende. Trump é também devastador. Nestas circunstâncias, tudo indica que conseguiria mais o menos o mesmo com qualquer adversário hipotético à esquerda, com a exceção de Obama, o incumbente, que todavia não poderia recandidatar-se. Ninguém gosta desta ideia justamente porque tira ilações redondas sobre aspetos casuais. Teria de haver alguém que gerisse o fenómeno, "alguém que pensasse como eu", ou um homem... 

Trump fez uma campanha eficiente. Soube colocar os media contra si próprios e teve um espaço de antena gratuito que nunca ninguém teve. Propõe mais investimento público, algo de que os EUA invariavelmente necessitam. Ninguém sabe o que Trump pensa, se é, realmente, racista ou se decidiu instrumentalizar o ódio racial, os supremacistas brancos e as teorias da conspiração como plataforma, de forma cínica. Não quer isto dizer que a maioria dos apoiantes de Trump faça parte dessa plataforma, mas é a sua base de apoio, e não é difícil crer que chegue a boa parte desses eleitores. Existe sempre uma dúvida entre o que um político pensa e o que faz, mas a atuação é sempre condenável. O que aí vem é uma incógnita, mas vai ficando definida uma equipa muito mais à direita na economia e na política externa do que Trump dava a entender na campanha.

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publicado às 02:36

Bofetadas e afins

por pedrop, em 07.04.16

O deputado João Galamba sugeriu, há tempos, um "murro na tromba" do deputado Duarte Marques. O então deputado José Eduardo Martins queria resolver o assunto "lá fora" contra um colega deputado, Afonso Candal, que tinha intervindo sobre painéis solares na Assembleia da República. Outro deputado do CDS atirou uma sanduíche contra a cabeça de Maria José Nogueira Pinto, quando o CDS se ajustava (usando o verbo da moda) da derrota eleitoral de 2005. Lembram-se de quando o assessor de imprensa do PSD, Zeca Mendonça, foi apanhado por uma câmara a agredir um repórter num evento oficial? Foi logo demitido, não foi? Nem por isso, foi elogiado e no fim de semana passado até teve uma homenagem no Congresso do PSD - homenagem a que nem o histórico líder Cavaco Silva teve direito na saída da sua vida pública (pense-se o que se pensar dele). Longe de mim querer fazer elogio da violência e das declarações censuráveis de João Soares, de que nem sequer partilho o estilo em termos políticos. Mas acho curioso ver quem lhe peça hoje a demissão ter defendido o oposto num ou em vários casos como estes de que me lembrei. Longe vão os tempos em que a coisa era à séria. No início do século passado, prestes a assumir a presidência da república, João Pinheiro Chagas levava um tiro no olho. Sobreviveu. O senador que disparou, o transmontano João José de Freitas, nem por isso - acabou linchado pela população no Entroncamento. Há quem continue a perder as estribeiras e a razão, e o teclado ajuda.

 

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publicado às 20:02

Não nos incomodem

por pedrop, em 08.03.16

Dificilmente se encontrará na História das Comunidades, e depois da União Europeia, uma decisão formal tão chocante quanto a que hoje está a ser notícia sobre os refugiados. O princípio de que se parte é, desde logo, um equívoco: podermos olhar para refugiados da mesma forma que olhamos para a imigração. Depois, conclui-se: não temos capacidade. Por contraste com que países? De pouco vale lembrar que somos o bloco económico mais rico do mundo, ou qualquer argumento racional. A razão dificilmente altera o que nasce contra a razão. Qual é, então, a opção? Uma hipótese seria mandar os incómodos refugiados de volta aos países de origem, o que até poderia constituir crime. Resta colocá-los em campos, mas não campos quaisquer: de modo a que não incomodem, tem de se gastar o mínimo e impedi-los de daí fugir. Pequeno problema: a UE e os estados violariam os princípios jurídicos a que estão adstritos e de que se orgulham superiormente - a sociedade civilizada. Mas o problema resolve-se facilmente: terceiriza-se o belo serviço. Paga-se a algum estado terceiro para lavar a nossa roupa suja. continuamos civilizados. que estado se poderia escolher? Que tal um estado que tinha interesse em aderir ou cooperar mais com a União e que sempre foi rejeitado? Melhor ainda: que tal um estado que tem já uns milhões de refugiados por lá? Pode ser que ninguém repare na pressão adicional... problema resolvido. O bloco económico mais rico do mundo, não querendo perturbações com o incómodo supérfluo dos refugiados, mobiliza o seu poder político para desequilibrar ainda mais a situação, recambiando estas incómodas vítimas das guerras no médio oriente e dos próprios erros europeus nessa zona do mundo a países muito mais pobres e pequenos, que já acolheram um número muito superior de refugiados do que os que alguma vez pisaram o nosso solo sagrado. Em troca, dá-se uma esmola generosa. E ainda dizem que a Europa é o continente onde a real politik termina no momento em que começa a dignidade humana... 

Julgar que a desumanidade da senhora Le Pen ou a crueldade do senhor Trump do outro lado do atlântico são o problema que precisa ser suprimido é um enorme equívoco motivado por falta de perspetiva. O problema está em nós.

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publicado às 03:20

Eutanásia

por pedrop, em 18.02.16

Escrevo este texto sem grande rigor terminológico, por falta de paciência para isso, e por isso usarei indistintamente os termos eutanásia, morte assistida ou escolha de morte.

Se é legítimo que um doente terminal em grande sofrimento possa escolher morrer, não é legítimo que seja levado a fazer tal escolha inserido num contexto de demissão do Estado social pelo seu bem-estar. Se passa a ser inexigível ao cidadão suportar a vida em condições de esforço e de desgaste brutais, impõe-se ao Estado, de forma direta e imediata, um dever específico, porque vinculado ao valor da vida humana (enquanto tarefa fundamental e constitucional do Estado), de afastar todas as causas desse sofrimento brutal que o possam ser. O mesmo é dizer que não é aceitável, de todo, que se proponha a eutanásia sem um debate alargado e assumido sobre as condições em que alguém pede para morrer, e sem uma proposta detalhada e específica para afastar todas aquelas condições que possam ser afastadas.

Ao que parece, segundo um estudo no Oregon, EUA, pouco menos de metade dos que pedem para morrer fá-lo por falta de cuidados paliativos adequados, desistindo quando a eles tem acesso (no Diário Económico). É um número avassalador de escolhas de morrer perfeitamente evitáveis, apenas induzidas pela falta de cuidados paliativos. E ainda haverá os casos de pressão familiar direta ou indireta (as famílias decentes não o fazem, mas é preciso ter a honestidade de assumir que nem todas as famílias o são), ou o sentimento de fardo para a família e para a sociedade. Em ambas as matérias está tudo por fazer em Portugal.

Ora, se o Estado não faz, previamente, tudo o que deve para permitir uma escolha, verdadeiramente, autónoma e numa situação de constrangimentos, verdadeiramente, inelutáveis, invocar unicamente um argumento libertário para a eutanásia traria todas as consequências concretas nefastas dum idealismo superficial – nomeadamente, significaria, em muitos casos, induzir, na prática, o paciente à escolha pela morte, num contexto de formal e aparente liberdade. Mas parece, que, perigosamente, é mesmo isso que está a acontecer na forma e no método com que se suscitou e se pretende fazer este debate sobre a morte assistida.

Não basta dizer, abstratamente, que são precisos cuidados paliativos e particular atenção ao doente na sua escolha. É preciso uma proposta para resolver, em concreto, as profundas deficiências em matéria de cuidados paliativos e acompanhamento de doentes. É, desde logo, fundamental que se crie um sistema à séria de cuidados paliativos em Portugal. Faça-se isso e a eutanásia, reduzida a escolha, tendencialmente, orientada para aqueles casos em que não há nada a fazer, será muito mais consensual do que se pensa no nosso país. Ao contrário do que se diz, este tipo de temas não deve ser “fraturante” mas sim compromissório, não “de consciência” mas eminentemente político e moral.

Uma outra nota que este tema me merece é, justamente, a crítica ao argumento da dignidade na eutanásia tal como vem sendo invocado. É certo que se pode considerar misericordioso o médico que ajude a morrer alguém em profundo sofrimento, bem como dizer que é indigno, da parte da sociedade, forçar coercivamente alguém a aguentar tal sofrimento. Mas não se pode nunca deixar de dizer que também pode ser digno o comportamento de quem não desiste de viver, mesmo que não agíssemos da mesma forma. Esquecê-lo, não o vincando expressamente, significa abrir a porta a considerar-se melhor que se morra quando se está em situação terminal ou de grande precariedade na vida, aproximando-se dum imperativo moral que é totalmente intolerável numa sociedade progressista, em que nenhuma pessoa é um fardo.

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publicado às 00:04

Social-democracia e gratuitidade

por pedrop, em 09.12.15

Já tive outras ideias, mas cheguei à conclusão de que os princípios da social-democracia apontam para que a educação (incluindo o ensino superior), a saúde, os transportes públicos e um valor mínimo de consumo de eletricidade, gás, água e telecomunicações sejam bens gratuitos para o utilizador. Ou seja, o princípio do utilizador-pagador tem sido assumido no centro-esquerda de uma forma que me parece contraditória com os princípios gerais. Isto dito abertamente, em 2015, talvez seja um choque em Portugal. E bem sei que os constrangimentos (no caso, financeiros) dificultam sempre a aplicação de princípios. O que digo vai com esta ressalva de que não estou a propor uma mudança radical destas. Mas também não é uma ideia puramente teórica. Haverá uma orientação política daí decorrente para concretização: na medida do possível, reverter as taxas e preços neste âmbito. É, em parte, por isso que defendo um setor estratégico do estado, em que o lucro reverta para novos investimentos (inovação, infraestruturas) e para a redução de preços e taxas. É também por isso que apoio a redução das taxas moderadoras ou a reintrodução de viagens gratuitas para os funcionários ferroviários que o governo está a anunciar.  É preciso, no entanto, saber quais são os custos. Haja folga orçamental. 

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publicado às 19:48

Sem revoluções nem voluntarismo

por pedrop, em 08.12.15

A única forma de responder à recusa do Outro é promover a aceitação, a tolerância e a inclusão. Sendo uma crise de sentido para o continente, a Europa só sairá dela se e quando decidir sair (é uma redundância). Normalmente, nos círculos inconformados, lança-se uma receita, por exemplo nas políticas sociais: salário mínimo europeu, subsídio comum de desemprego. A lista possível de ideias é infindável. Outras vezes, espera-se que o próximo governo de centro-esquerda num estado europeu faça, enfim, diferente (o quão diferente oscila entre a legislação interna e a saída do euro ou da UE). Só que o problema não é propor a melhor lista, nem identificar o D. Sebastião europeu, mas sentar todos à mesa para discutir um conjunto, que pode ser variável, de compromissos - sem revoluções nem voluntarismo. Em tantas décadas de integração europeia, nunca houve uma conferência social a sério. E quando a crise se adensa, exigindo mais empenho, é quando ele mais falta. Qualquer compromisso, por mais modesto que fosse, seria excelente, porque reconheceria o problema enquanto tal, e não se recusaria mais enfrentá-lo. Uma coisa tão simples quanto uma conferência social e política europeia entre líderes social-democratas seria um passo de gigante. E, sim, o caderno de encargos implicaria os objetivos duma harmonização fiscal e duma federalização de certos aspetos da proteção social.

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publicado às 17:27

Pequeno rascunho sobre direitos

por pedrop, em 07.12.15

O direito não prescinde do dever, da limitação. Onde não há limites, tudo é possível. Mas, onde não há limites, também não há direitos - tudo depende do poder, do jogo fáctico de forças entre seres iguais ou desiguais. Mesmo o direito de fazer algo (sob certas formas) corresponde ao dever de não impedir ou de permitir que se faça algo (nessas formas). Um direito é sempre relacional - face a alguém. Não há direitos em solidão. Os direitos são-no porque os reconhecemos enquanto tal (ou a divindade reconhece, no caso do direito natural), como expectativa que alguém tem e que exigências de justiça nos levam a aceitar, no momento em que exigimos o respeito correspondente. Por muito que se objetive (e bem, porque objetivar é também universalizar), qualquer direito corresponde a uma imposição subjetiva.

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publicado às 21:47

A recusa do Outro

por pedrop, em 06.12.15

Diferentes faces do mesmo problema: a hegemonia excessiva da Alemanha, o défice de direitos sociais na União Europeia, a austeridade sem dó nem piedade (exclusão económica), a xenobia (exclusão social), a aversão aos refugiados, a rebeldia pelos piores motivos de alguns estados a leste, a vontade de sair da União no Reino Unido e na França (por motivos ligados a uma suposta superioridade que não se compadece com a igualdade entre estados), o crescimento da extrema-direita francesa. Uma recusa do Outro, que muitos julgavam afastada desde a segunda guerra, mais por uma mistura de "wishful thinking" e de tabus do que pela análise racional e pelo debate franco, reemergiu na Europa. Esta recusa do Outro é a maior crise com que a Europa se confronta desde a crise da "cortina de ferro", sendo incapaz de lhe responder à medida que se intensifica. A resposta aos atentados de Paris, pela aposta de insuspeitos socialistas no estímulo ao medo e à irracionalidade, tornou evidente que um futuro sombrio se avizinha. Nunca foi tão importante confrontar a recusa do Outro como hoje. É a linha divisória do combate que se segue.

Os resultados nas eleições regionais francesas demonstram que o problema segue crescendo. Mas demonstra também o erro profundo dum centro-esquerda que cede ao núcleo duro das ideias irracionais da extrema-direita, para tentar sobreviver. Não só se transmuta num sucedâneo mais moderado da mesma espécie, não só introduz mudanças num país no sentido da substância do que a extrema-direita defende (o que é o mais relevante), como aparentemente não consegue sobreviver, nem travar a ascensão de quem personifica as ideias de exclusão. Portanto, o sinal claro que fica destas eleições para os sociais democratas é que, hoje como ontem, ceder ao núcleo essencial da extrema-direita nas políticas normaliza a própria extrema-direita no sistema, dando-lhe uma oportunidade a prazo. Compete, na verdade, aos políticos sérios não desistir do caminho mais difícil: o de recusar o discurso do medo e da irracionalidade, o de confrontar a extrema-direita, desconstruíndo-lhe as ideias com racionalidade, razoabilidade e repetição. A questão é saber se ainda há políticos desses.

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publicado às 20:03

As redes

por pedrop, em 05.12.15

Os murais das redes sociais são um espaço de solidão, onde não há grande espaço à verdade despida de teatralidade, nem à fraqueza, nem à dor. Transformamo-nos um pouco em estrelas de televisão, de naturalidade criada para o espectador. Ninguém partilha fotos num Instagram num momento despreparado justamente porque quem recebe está, no momento, despreparado e ninguém quer ver, de repente, essa humanidade toda saltar pelo ecrã em que nos refugiámos num momento de timidez. Por isso, quem está a sentir-se em baixo esconde o sentimento, ou desaparece, sem que se dê muito por ela, porque o mural segue desfilando imagens de quem se perfila a aparecer. É uma competição feroz por uma atenção efémera. Não há espaço. Não há tempo para a dúvida, para a hesitação. Quem escreve numa rede social deve ser direto, conciso, inquebrável no moral sobre o que está a dizer, porque vai ter críticas ferozes e, se se atrapalhar, o espectador deixa de lhe ligar atenção sobre tudo o que disser depois. As redes sociais aparecem, aí, como um sítio mais perfeito do que a realidade, alimentado por um círculo de vaidades procurando um pouco de atenção. Nem tudo é mau. Há quem perceba isto e, como bom humano, não caia na armadilha, procurando com o que escreve e partilha dar algo a quem lê ou vê. São os que tornam isto fascinante (tenho de admitir que as guerrinhas também são fascinantes). São os que refletem à parte, os que leram algo fantástico e publicam porque querem que vejamos o mesmo, os que se preocupam em oferecer uma experiência qualquer, seja um link, uma imagem jpeg ou uma música, duma forma brilhante, que parece que chega no momento certo, quando estávamos a precisar daquilo. Mas é sempre um exercício de audiência. Quando transpiramos dor num mural de rede social, até vamos ler muitos comentários de solidariedade. O problema é ver se essa solidariedade é perene ou momentânea e, sobretudo, se é dirigida a quem publicou a sua dor ou à tranquilidade de espírito de quem leu. No Fausto de Goethe, há uma afirmação que, a propósito, vale a pena ter sempre em vista: "ao instante só serve o que o instante cria".

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publicado às 22:58