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A escolha inevitável

por pedrop, em 02.11.13

Sofia Galvão, no Expresso da Meia Noite (02/11/2013):

Eu limito-me a aprender com quem sabe: é verdade ou é mentira que temos um problema de dívida, e que no início deste regime político tínhamos uma dívida de 15% PIB e agora temos 125%? Li isto escrito por quem sabe. Isto corresponde ou não a um modelo de vida colectiva que obviamente nos trouxe até aqui e que tem de ser repensado porque nós não podemos continuar nesta trajectória? Há um modelo social que temos que revisitar e temos que discutir que sociedade queremos ter. [com supressões]


O que quer Sofia Galvão dizer quando resume o regime democrático a um "modelo de vida" despesista que "não pode continuar"? Tenho-me questionado se o espírito intelectual desta austeridade acredita na sustentabilidade política do que propõe e defende. Julga ser possível arrasar a classe média deste regime, destruir os seus alicerces económicos, fragilizar publicamente de modo sem precedentes os guardas dos guardas (juízes), impor uma regra de ouro do défice e uma lei de ferro de vida casta por 30 anos - julga mesmo possível fazer tudo isto sem que isso implique a queda da democracia? Porque, apesar de certas declarações infelizes, parto do pressuposto, e continuarei a partir dele, de que não se quer fazer sobrepor à democracia uma outra coisa qualquer.

 

Mas quando ouço estas declarações, é um outro ar que respira. É um ar de nostalgia, uma evocação de um outro tempo, em que a vida colectiva não tinha de ser revisitada, repensada, porque não nos trazia até aqui, porque não tinha um problema de dívida, nem esta trajectória. A narrativa particulariza a democracia na questão da dívida, fazendo da trajectória da dívida uma interpretação, para daí extrair um juízo sobre todo o regime, generalizando. É um discurso perigoso. É uma conversa que não merecia existir - independentemente dos defeitos e das qualidades deste e do outro regime.

 

É como se nos tivéssemos tornado irresponsáveis, o que só por si abriria a porta a se justificar uma pretensa necessidade autoritária. Quem nos coloca a questionar o modelo de vida em que ingressámos é uma minoria. Como pode essa minoria fazer-se impor? Enquanto prevalecer a ideia de inevitabilidade (porque "não podemos continuar nesta trajectória"), não haverá dilema. Mas, e depois disso? E se a inevitabilidade for posta em causa? Esse questionamento começa logo aqui: como se pode falar de uma escolha da sociedade que queremos ou não ter, se a inevitabilidade nos impõe uma dada solução? Que inevitabilidade permite, a quem a revelou, pretender discutir, com os outros, o modelo social do regime que nos trouxe até aqui? Ou há escolha, ou há inevitabilidade. Quem fala em ambas, anula esta última. Onde ficamos?

 

Se há programa televisivo recente que tenha sido clarificador sobre parte do que temos diante de nós, foi este Expresso da Meia Noite. Vale a pena ser visto.

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publicado às 02:19