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Equívocos

por pedrop, em 04.01.14

Quando se discutem as inconsistências da UE ou das organizações que constituem a comunidade internacional, dum ponto de vista alegadamente liberal, acho que há alguns equívocos que precisam ser desfeitos. O primeiro é o desligamento entre mercado e estado. Não há mercado, nem comunidade, sem organização e poder políticos. São realidades que coexistem.  O segundo equívoco é ligado ao problema da globalização. Num mundo globalizado, emergem problemas transnacionais - crimes, crises económicas, terrorismo, pandemias, aquecimento global. Parece assente que os poderes nacionais nem sempre conseguem lidar com eles, por manifesta impossibilidade (salvo no caso das maiores potências). O que não é tão pacífico é que a igual incapacidade de lidar com esses mesmos problemas por parte dos poderes transnacionais, ainda embrionários ou mal desenhados, deva ser resolvida. O equívoco que se coloca é o de tentar negar os problemas emergentes (como a poluição e o aquecimento global), ou de os justificar como castigo, quase divino ou moral, o que não deixa de ser uma forma de negação. É o caso da crise bancária e da dívida, explicada como consequência de irresponsabilidade, cujas consequências nefastas devem ser incluídas na gestão difusa e fragmentada estadual - mascarando a incapacidade de evitar a tragédia com a criação duma vontade de se associar a ela, para repor a moralidade. O terrorismo é outro exemplo, sendo visto como um castigo pela presença americana em países árabes, que não deve ser combatido porque não pode ser combatido; o único caminho sendo o da desintervenção pura.

 

A meu ver, este é um ponto de vista completamente equivocado. Não obstante eventuais responsabilidades na formação das crises e eventuais erros na política externa poderem ser causa de problemas transnacionais, a forma de lidar com eles tem de passar por algo que seja supranacional. A alternativa é a resignação perante a tragédia, o que parece ser uma proposta pouco razoável, sobretudo quando comparada com o teor da crítica à hipótese supranacional, que costuma oscilar entre a importância da cultura nacional na configuração do Estado (plenamente) soberano e a proximidade das instituições ao cidadão. Se à segunda se contrapuserem a subsidiariedade (só questões transnacionais carecem de intervenção transnacional) e a democraticidade na configuração das instituições supranacionais, pouco resta. O desafio é o de evitar a apropriação dos novos poderes pelos antigos, instrumentalizando-os à política interestadual, em função da sua racionalidade de estado.  Mas os problemas que há no sistema supranacional actual também não podem ser desculpa para deitar a ideia no caixote do lixo, embora a tornem necessariamente mais morosa e difícil de executar. Do outro lado da balança está algo imensamente mais pesado: a possibilidade de contrariar a inevitabilidade da tragédia, e a necessidade de alargar o poder político, para ombrear com o alargamento da comunidade, dos mercados e dos problemas emergentes.

 

Caso contrário, a globalização encontrará em cada crise mais adversários, porque não é irreversível e depende sempre de vontade política. Tudo isto me parece óbvio. 

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publicado às 03:36