Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



A armadilha do passado

por pedrop, em 18.05.13

Samuel, agradeço o comentário. Na verdade, gosto de o ler e há algumas coisas em que concordamos. Esta certamente não é uma delas. Não quero de modo nenhum equiparar-me ao Samuel nas suas referências intelectuais, não foi nem é minha pretensão. Mas espero que já tenha tomado o sal ENO, que bem acalma o estômago. 

 

Que tipo de conceito abstracto de família pode sobrepor-se às famílias concretas que se pretende prejudicar, negando-lhes a faculdade de estabelecer um elo de responsabilização jurídica do outro elemento dum casal (sim, o casamento homossexual também é uma forma de constituir família) face à criança que já educa, de que já é pai/mãe de facto? De que "ideal antigo" do texto citado estamos a falar quando se quer discriminar homossexuais e os seus filhos? Continuo sem saber que consequências tão nefastas se abateram sobre os 22 países (contagem minha) que já permitem a situação que estamos a discutir em Portugal - sendo que a maioria deles até vai mais longe e permite a adopção plena. Alguma bomba de hidrogénio social varreu as populações da Argentina, da Finlândia, da Alemanha, da África do Sul ou do Reino Unido sem que se tenha notado? Dizer frases apocalípticas sem qualquer clarificação concreta de riscos e, repito, contra a ciência ou até associações de defesa dos direitos da criança*, torna isto num cepticismo irrazoável (para não lhe chamar, expressão minha, "último reduto jurídico de homofobia").

 

Não creio que se possa negar a importância do passado, embora não me sinta preparado para fazer um juízo pleno. O que está aqui em causa é saber se o passado deve monopolizar a ideia de História, se devemos esperar por um futuro longínquo para que a dignidade das pessoas possa afirmar-se ou se também podemos ser agentes da História, fazer a diferença no presente, não nos conformando com os destinos de quem está vivo hoje e apenas pede para ver a sua situação reconhecida pelas leis: são os chamados direitos humanos. Não duvido que o passado possa dar lições para o futuro, mas também não podemos negar que legou erros ao presente. Aliás, o passado já foi presente um dia. Creio que o Samuel pode concordar com isto: a História também se faz de tensões entre a mudança e a permanência. Os direitos das mulheres, de deficientes de minorias raciais e religiosas já foram uma utopia de futuro incerto e são hoje uma constante, e foi preciso agir para que eles se afirmassem. Tudo isto, naturalmente, assumindo que se quer corrigir esses erros - sim, talvez se lhe possa chamar "progresso".

 

*A ler: comunicado do IAC sobre a co-adoção pelo cônjuge ou unido de facto do mesmo sexo (via @ruicostapinto).

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 22:07