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O Contra-Exemplo

por pedrop, em 20.05.13

Bill Clinton (5 de maio):

 

It's obvious that if you overdo austerity, you get Europe

 

Bill Clinton, que enquanto presidente teve os primeiros excedentes orçamentais nos EUA em décadas, apresenta o caso europeu como exemplo do que não se deve fazer no seu país: combater o desequilíbrio orçamental no curto-prazo descurando o crescimento económico. Há uns anos, quando a austeridade se tornou paradigma deste lado do atlântico, quando os estudos de Rogoff/Reinhart sobre dívida e crescimento eram aceites como cientificamente precisos e sérios, quando nos diziam que as "reformas estruturais" serviriam para trazer a luz ao fundo do túnel, quando um governo dum país intervencionado se entusiasmava com programas de "ajustamento", alguns candidatos republicanos citavam a austeridade no sentido oposto: o "stimulus" de Obama estava errado, ia no sentido das anteriores políticas irresponsáveis europeias, era preciso seguir o novo caminho trilhado pela Europa antes de chegarem os problemas com que a Europa se debatia.

 

Em 2013, os estudos científicos foram refutados, e a observação empírica é aquilo que sabemos. A comparação entre as experiências americana e europeia no pós-crise financeira não poderia ser mais demonstrativa do fosso: desde o segundo trimestre de 2011 que a Europa perde rendimento, enquanto os Estados Unidos o ganham; na Europa o desemprego cresce desde 2010, enquanto nos EUA se segue um caminho inverso de criação de emprego desde essa altura; o défice público federal norte-americano vai cair para 2,1% do PIB segundo as previsões para 2015, pela combinação da política orçamental com os resultados da política expansionista. Quando olhamos para o problema europeu, temos de olhar para a solução americana. O eurocentrismo do debate público retira perspectiva por nos impedir de estabelecer comparações na busca por alternativas a uma solução que tem trazido pura decadência.

 

 

Os EUA estiveram pior na crise financeira, mas hoje parece óbvio que estão melhor do que nós: recuperaram, enquanto Europa adensou a crise financeira, convertendo-a numa crise de dívida soberana e do euro. Na raiz, essa conversão não se deve a nada mais do que uma crise política, a verdadeira causa do problema europeu. A Europa tornou-se no alvo da chacota mundial pelos erros macroeconómicos dos seus decisores políticos, ou pela sua incapacidade de atingir o difícil consenso no actual quadro para utilizar os mecanismos de resposta necessários. Acredito que não podemos continuar com este défice dos meios macroeconómicos. Se essa crise política, que muitos continuam a ignorar, não se resolver, e se não houver milagres à escala europeia da Nossa Senhora, o projecto europeu como o conhecemos só poderá sofrer um sério revés.  Há quem o tenha percebido, tanto no sector europeísta e como no sector eurocéptico. Ler também: The German model is not for export, Martin Wolf, 2013; US Crisis Gratuitously Self-Inflicted, Jeffrey Frankel, 2011.

 

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publicado às 03:53