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Saber fazer contas

por pedrop, em 27.05.13

Diz o Nuno Gouveia que os "socialistas nunca foram bons a fazer contas" porque, num episódio caricato, Seguro revelou desconhecimento sobre a revisão do défice que o Primeiro-Ministro admitiu para 2014. Seguro julgava tratar-se de uma redução e não de um aumento (Passos Coelho admitiu poder ser de 4,5% contra a previsão actual de 4%). Esquecendo a hipérbole "profunda ignorância", houve obviamente uma falha de atenção num assunto importante. Mas daí a concluir que não sabe fazer contas...

 

Esta frase sobre os socialistas é famosa e muito usada. Sem saber bem o que é que "socialista" quer dizer, pergunto-me se a característica de falhar contas não alargará o conceito a pessoas como o Ministro das Finanças e o Primeiro-Ministro. É que todas as previsões erraram de forma substancial.

 

Recordemos o que se está a passar nos dois indicadores essenciais para o sucesso do programa de ajustamento: a consolidação orçamental e o crescimento económico. Trata-se do cocktail que, nos tinha sido garantido, era perfeitamente possível. Tendo os dados científicos na matéria sido entretanto refutados, é de estranhar que isso ainda não se tenha reflectido nas palavras de certos responsáveis europeus e portugueses. Basta saber que Vítor Gaspar prefaciou o livro dos autores de um desses estudos refutados, ou que o ministro alemão Schaeble se refere entusiasticamente a Portugal como um caso de "sucesso", para verificar o estado de negação. A desconexão é surpreendente, excepto, talvez, pelo facto de a sua vida política depender da sustentação desse discurso, e pelo animus político (que não económico*) em alguns estados no que toca aos compromissos de coesão no âmbito da UE.

 

Ainda o ano passado, previa-se um défice em 2013 de 3%, mais tarde revisto para 4,5%, e que agora está nos 5,5%. Na economia, a previsão do Governo feita em 2011 para 2013 era de crescimento em 1,2%, mas o produto continuou em queda: 2,3% é a previsão actual. São "vários tiros ao lado":

Antecipava-se uma quebra do PIB de -2,2% em 2011 (que acabou por ser de -1,6%), mas a recessão de -1,8% estimada para 2012 foi, na verdade, de -3,2%. Se para este ano o DEO [de agosto de 2011] fazia crer que o país já ia estar a crescer (+1,2%), o Governo foi revendo as previsões sucessivamente. O Orçamento do Estado para 2013 previa já uma recessão de -1% que, na verdade, será mais do dobro, segundo a previsão decorrente da sétima avaliação da troika (-2,3%).

2014 continua a ser projetado como um ano de crescimento, mas bem mais anémico do que se supunha. O DEO era bastante otimista (+2,5%). A última previsão já é de +0,6%. O Banco de Portugal avisa que a economia pode praticamente estagnar (+0,3%) com os cortes no âmbito da reforma do Estado previstos para o próximo ano, a rondar os 2.500 milhões de euros.

 

Aliás, não só falharam as previsões do passado, como tudo aponta para que falhem as previsões que agora estão a ser apresentadas.  

 

No entanto, o que se passa na Europa, com o actual predomínio político por determinado tipo de responsáveis, é pior do que não saber fazer contas. Vítor Gaspar, que aconselhava as instituições da UE em matéria económica antes de ser Ministro das Finanças, representa o exemplo paradigmático: o economista que rejeita a economia tal como ela é, que acredita na omnipotência do economista que sabe fazer certas contas, construir um certo gráfico, elaborar um certo modelo. Omnipotência que se traduz na crença de que cada modelo que se faça, sobretudo num universo científico redutor (porque polarizado), irá corresponder à realidade. Sustentando a crença está a rejeição de determinados pressupostos macroeconómicos assentes na procura, tentando-se revitalizar a defunta lei de Say, como se fosse possível a todos os estados europeus exportarem (ficção construída em torno do exemplo irrepetível da Alemanha), ou como se, estimulando apenas as empresas, por via da redução de custos com pessoal, e logo retirando ao grosso dos consumidores a capacidade de comprar produtos, se pudesse obter crescimento económico.

 

O economista que se torna contabilista, porque só sabe fazer contas com os números que escolheu, que é indiferente ao falhanço das suas receitas e que elabora soluções sem solução: o problema do Governo de Passos, de Gaspar e de Moedas não é não saber fazer contas. O problema é confundirem contabilidade com economia, empresas que se restruturam com Estados que entram em decadência. Talvez não sejam socialistas, afinal. De qualquer forma, são, obviamente, prejudiciais ao interesse nacional.

 

* A comparação entre as experiências europeia e americana é demonstrativa das perspectivas económicas que um outro animus político poderia proporcionar.

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publicado às 10:28