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A austeridade chega à calçada portuguesa

por pedrop, em 04.04.15

"Acabou o tabu sobre o mais típico pavimento português. A calçada portuguesa pode estar, em nome da acessibilidade, no princípio do fim." São frases apelativas numa peça do Expresso, dando uma ideia de liberdade e segurança a uma realidade muito menos colorida.

De repente, emergiu uma questão de segurança. Mas, se a calçada portuguesa revelava uma insegurança absolutamente vital, porque é que sobrevivemos tão bem tantos anos com ela? Porque não se considera rever o pavimento apenas onde se exige segurança, como subidas íngremes? São questões às quais os proponentes irreverentes do fim da calçada portuguesa não procuram dar resposta, porque a questão da segurança é um pretexto conveniente. Não querem contratar calceteiros. Na verdade, uma boa parte dos problemas atuais da calçada deve-se aos cortes na manutenção.

A calçada portuguesa é a melhor do mundo, para nós, no nosso contexto. Além de ser agradável (opinião pessoal), com vantagens que alguns especialistas referem (ou referiam antes da "irreverência" que pôs em causa "tabus", ou elevou um novo tabu de não se defender a calçada que temos), trata-se dum elemento da nossa identidade. Ideologicamente, a austeridade passa por eliminar estes fatores de pertença, sob pretextos utilitários, apelando a instintos de preservação das pessoas comuns, para vencer resistências à eliminação dos "tabus". 

Simplesmente, o problema é que a melhor calçada do mundo tem um custo. E as autoridades querem cortar esse custo. Não supreenderia se se lembrassem, a seguir, do ambiente (pedreiras) ou até da estética ("já não está na moda"), como pretexto para acabar com a nossa calçada. Já se lembraram dos "referendos" - as aspas são obrigatórias quando se faz uma consulta local não referendária, puramente consultiva, para evitar a exigência de objetividade, quanto à pergunta colocada e ao contexto, dum referendo local. Ao menos, não insultem a nossa inteligência. Sim, já sei o que alguns dirão. É difícil seguir, "by the book", as estratégias argumentativas da austeridade sem cair nesse tipo de conduta. Certo.

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publicado às 14:09