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À espera de um tempo melhor

por pedrop, em 21.02.15

Às vezes, acho que mais valia os partidos de esquerda não apresentarem listas a eleições. É simplesmente triste. Na Grécia, depois de tanto esforço do Syriza, parece que pouco se obteve. Há quem lembre que não é nada que não se pudesse obter à mesma, porventura com menos conflito político. Já antes se falava na Europa na lógica da benesse, de flexibilizar o défice em 1,5%. Veremos se a concretização do acordo implica mais do que isso. Tenho impressão que as declarações do governo grego começam a voltar-se para dentro, defendendo tão-só o que ficou estabelecido. O PM Tsipras chega a dizer que o "objetivo principal" foi atingido, num "grande sucesso" e que a austeridade foi deixada "para trás" (!). É claro que o acordo alcançado não diz isso. Fazer essa interpretação internamente, em jeito de conclusão, parece o início duma justificação do pouco que foi alcançado, o que indica que não se pode esperar muito mais. O próprio Tsipras fala num esforço que vai ter de ser feito, porque encontrou os "cofres vazios". Soa ao jogo semântico a que já assistimos com líderes socialistas, chegados ao poder contra a austeridade - sim, Hollande. Nas reações, vi a direita quase a deitar foguetes e a generalidade da esquerda, colada ao Syriza, a ficar-se pela conclusão de que ao menos os gregos lutaram, o que vale sempre a pena - o que é um lugar-comum. É verdade que os gregos se bateram. Mas qualquer militar lembrar-se-á duma regra básica: ter de lutar por um punhado de terra que implique um esforço demasiado elevado não é motivo para nenhum festejo. Pelo contrário, dá grande preocupação. Devo dizer que gostei da honestidade intelectual de Francisco Louçã, algo desanimado, colocando sempre a hipótese duma boa concretização do acordo no condicional. Mais inteligente tem sido o PCP, que sempre manteve a frieza em relação ao Syriza. Tem outro andamento e outra gestão do tempo, menos mediática. Às vezes, é uma vantagem.

Onde fica essa nossa esquerda? Qualquer comentador concluirá que a situação política em Portugal não muda tanto por causa da Grécia, mas há algo muito relevante que fica em causa. Se o acordo se concretizar em pouca coisa, na linha do que teria sido de qualquer forma, como tudo indica, resta defender a consolidação ao jeito do Syriza, dizendo tratar-se duma enorme vitória que se sabe não ser. Ou então admite-se que a coisa não resultou e, nesse caso, é preciso pensar noutra forma de mudar o contexto europeu. Suavemente, Louçã sugeriu uma possibilidade ainda mais radical: passar a combater a própria UE. É de suspeitar que o timing eleitoral conduza à primeira opção. Regresso à frase com que comecei. Se é para dar novos nomes às coisas, se no fundo acham que o contexto europeu é demasiado difícil para ser mudado, os homens e as mulheres que se dizem contra a austeridade candidatam-se a quê? Se ir a jogo for para isso, e se se tratar de pessoas que não estão na política pelos cargos, talvez valha a pena ficarem pela reflexão e terem a paciência de ficar por casa, à espera de tempo melhor. Governar à direita deve ser um privilégio da direita, honra lhe seja feita.

 

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publicado às 18:39