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A justa austeridade e a austeridade justa

por pedrop, em 14.01.14

A razão pela qual muita gente na Europa critica o mandato de François Hollande em França é a demissão de se bater por uma alternativa à austeridade. Havendo uma moeda única, essa alternativa só poderia ser encontrada a nível europeu, sendo que a formação de decisões europeias é ainda determinada, em boa parte, pelos Estados mais fortes. Algures em 2010 formou-se, sobretudo, na Europa um consenso em torno de qual seria a justa austeridade a impor, para garantir o fim da crise e o desenvolvimento económico. Essa "austeridade expansionista" foi refutada na prática e na teoria, sem que o consenso tenha mudado muito. E é aí que se aponta a total incompetência de Hollande, que podia fazer muito e nada fez.

Mas considerar que há uma justa austeridade a implementar não significa uma demissão de pensar na distribuição desses sacrifícios. Mesmo sendo difícil a um Estado sozinho fugir dela, a austeridade é uma política económica e financeira, e não uma tragédia. Quem a implementa não é uma força da natureza, mas um decisor político que deve ser julgado pelo modo como a implementa. A calibragem pode ser equilibrada e desinteressada, distribuindo o mal pelas aldeias, ou aproveitando a situação para impor uma política de classes, de modo a perturbar ainda mais a coesão social. Só isso me basta para afirmar que o governo de Passos Coelho não merece de modo nenhum ser reeleito, e nem é preciso ser de esquerda para chegar a esta conclusão.

Está por demonstrar que toda a austeridade que se impôs é indiferente. Hei-de escrever um texto com duas ou três ideias na matéria. A favor de Hollande, digo que têm havido alguns indícios de uma preocupação de austeridade justa que, bem ou mal feita na prática, tanto incomoda aqueles que hoje tentam igualar os governos francês e português.

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publicado às 18:46


4 comentários

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De makarana a 14.01.2014 às 19:09

Boa Tarde
Em 2009,sem austeridade o défice grego atingiu 15%,o défice português 10% e a Espanha 11%.Esse quadro era sustentável? Acha mesmo? Acha que a situação grega era sustentável economicamente?
Sem austeridade nos anos anteriores sempre tivemos défices acim a dos 3% e crescimento fraquíssimo.
Se a austeridade causa tão mal,então porque é que Portugal e Grécia foram á falência,e a Alemanha,Holanda e Finlândia não foram?
Os problemas não são de agora Pedro.Numa altura d consumo alto das pessoas a crédito,o crescimento não passava de á volta de 1%
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De makarana a 14.01.2014 às 19:11

Acrescento a seguinte pergunta: porque é que acha que os mercados começaram a subir os juros das dividas soberanas em 2010?
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De pedrop a 27.02.2014 às 11:37

obrigado pelas perguntas e peço desculpa pela demora.
não sou economista, todavia creio que a causa para défices públicos persistentes se deve a uma necessidade de compensar as assimetrias na UE. se reparar, mercados com territórios em grande assimetria utilizam orçamentos gerais que fazem transferências entre regiões. não há isso na UE. portanto, resta aos próprios estados já em dificuldades utilizar o seu próprio orçamento para o fazer. quanto a 2009-2010, houve a crise financeira. digo tudo isto sem excluir o facto de esses défices colocarem os estados em causa numa posição de exposição. aconteceu isso com Portugal, quando o défice disparou por causa da nacionalização do BPN. questão essencial é saber se essa nacionalização era evitável. de qualquer forma, sim, Portugal ficou exposto. quanto ao surgimento do problema, parece óbvio que a fonte está na tomada de consciência pelos mercados de que o euro não significava um guarda chuva europeu (ao contrário do que se supunha tacitamente) - o que é, em parte, atribuível aos dirigentes da Alemanha e da França da altura, mas também ao próprio quadro institucional. o fundamental é perceber que a crise é europeia e não dos estados. o problema é que os estados estão com a maior parte do ónus de resolução sem ter boa parte dos instrumentos necessários.
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De makarana a 27.02.2014 às 12:03

Caro Pedro.
Há numa diferença entre resolver os problemas e mantê-los.Enviar dinheiro para uma região que teima não resolver os seus problemas financeiros e económicos, é de uma outra forma manter esses problemas. É alguém a sustentar e não o próprio pais sustentando dos seus próprios meios.Chama-se a isso independência financeira.Quando se tem défice,alguém está a pagar esses gastos.
E tenho muitas dificuldades em perceber como é que uma crise é europeia,se países como a Alemanha ou Finlândia não estão na mesma situação financeira dos do Sul.Um pais deve se gpvernar bem,viver com os seus meios.
A solução é diminuir o défice,solução que mesmo partidos de esquerda aplicam. É o que tem sido feito e ainda bem que assim é

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