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A recusa do Outro

por pedrop, em 06.12.15

Diferentes faces do mesmo problema: a hegemonia excessiva da Alemanha, o défice de direitos sociais na União Europeia, a austeridade sem dó nem piedade (exclusão económica), a xenobia (exclusão social), a aversão aos refugiados, a rebeldia pelos piores motivos de alguns estados a leste, a vontade de sair da União no Reino Unido e na França (por motivos ligados a uma suposta superioridade que não se compadece com a igualdade entre estados), o crescimento da extrema-direita francesa. Uma recusa do Outro, que muitos julgavam afastada desde a segunda guerra, mais por uma mistura de "wishful thinking" e de tabus do que pela análise racional e pelo debate franco, reemergiu na Europa. Esta recusa do Outro é a maior crise com que a Europa se confronta desde a crise da "cortina de ferro", sendo incapaz de lhe responder à medida que se intensifica. A resposta aos atentados de Paris, pela aposta de insuspeitos socialistas no estímulo ao medo e à irracionalidade, tornou evidente que um futuro sombrio se avizinha. Nunca foi tão importante confrontar a recusa do Outro como hoje. É a linha divisória do combate que se segue.

Os resultados nas eleições regionais francesas demonstram que o problema segue crescendo. Mas demonstra também o erro profundo dum centro-esquerda que cede ao núcleo duro das ideias irracionais da extrema-direita, para tentar sobreviver. Não só se transmuta num sucedâneo mais moderado da mesma espécie, não só introduz mudanças num país no sentido da substância do que a extrema-direita defende (o que é o mais relevante), como aparentemente não consegue sobreviver, nem travar a ascensão de quem personifica as ideias de exclusão. Portanto, o sinal claro que fica destas eleições para os sociais democratas é que, hoje como ontem, ceder ao núcleo essencial da extrema-direita nas políticas normaliza a própria extrema-direita no sistema, dando-lhe uma oportunidade a prazo. Compete, na verdade, aos políticos sérios não desistir do caminho mais difícil: o de recusar o discurso do medo e da irracionalidade, o de confrontar a extrema-direita, desconstruíndo-lhe as ideias com racionalidade, razoabilidade e repetição. A questão é saber se ainda há políticos desses.

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publicado às 20:03