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As fotos da desgraça

por pedrop, em 06.04.15

Porque é que temos de ver fotos e vídeos de exposição da carnificina para saber que há tragédias no terceiro mundo? Escrevo a propósito da chacina que um grupo terrorista cometeu numa universidade no Quénia, com imagens gráficas a circular nos media e no facebook. Parece normal. Estamos até habituados. Há décadas que enviamos jornalistas (quando não fotógrafos, em busca das imagens certas para obter milhares de euros numa galeria de arte) a África, como se fossem zoólogos, fotografar com máquinas caríssimas a fome de seres humanos, e que não intervêm, invocando ética (!), se uma criança morrer durante a "sessão". O argumento razoável não é ético mas utilitário, de alerta para o que se passa no terceiro mundo. Mas não é triste que seja preciso devassar desta forma a integridade desses seres humanos em nome dum alerta ao primeiro mundo? Não há limites para o grau da devassa admitida? Vale qualquer imagem, tirada cruamente em quaisquer circunstâncias, sem autorização do morto que vai ser conhecido no mundo pelo seu corpo atirado como lixo? Ficamos chocados quando os governos desses países sentem a sua honra afetada, acusamos a autocracia e a censura desses regimes. Mas não sentiríamos igual repulsa se nos transformassem num estereótipo da desgraça que ninguém inveja? E se fosse no primeiro mundo? O jornalista ou o fotógrafo seriam enxovalhados, como o seria qualquer pessoa que resolvesse divulgar imagens gráficas dos corpos estraçalhados no Charlie Hebdo. Não chegaria a isso porque haveria autocensura. Ninguém viu as fotografias tiradas pela perícia policial, mas isso não nos impediu que condenássemos o atentado e se perseguissem os terroristas respetivos. Pelo contrário, sem o choque das imagens, aquelas pessoas que morreram não se tornaram objetos ou instrumentos. Continuaram a ser pessoas para quem os conhecia; foram apresentadas, desde logo, como pessoas aos que desconheciam sequer o jornal satírico onde trabalhavam. No terceiro mundo, já se admite a devassa e a despersonalização, porque é para termos, nós pessoas do primeiro mundo, consciência da fome e do terrorismo. Mas não é o meio impeditivo do fim pretendido? Na verdade, é a desculpa que encontramos para justificar ante nós próprios o voyeurismo envergonhado, de animais que somos, ainda curiosos perante aquilo que racionalmente proibimos como crime. E não há desculpa maior do que o heroísmo. As desgraças do terceiro mundo são desconhecidas, não pela falta de imagens que nos acordem, que estamos bem despertos. São desconhecidas porque não nos importamos tanto com as vidas de países e de gentes que desconsideramos. E nenhum crime se resolve vitimizando novamente a sua vítima. Instrumentalizar-lhe a desgraça, devassando o núcleo da sua dignidade, para fazer um alerta é um descargo de consciência. Ver-lhe a desgraça é enganador - parece que acordamos porque nos choca. Na verdade, distraímo-nos, sonhamos um pesadelo, adormecemos com uma terrível pílula soporífera ao nosso próprio sofrimento e às injustiças que permanecem no quotidiano deste mundo que melhorou primeiro.

Também sei que, assim dito, parece fácil perceber o que é errado. Há zonas cinzentas, precisamos saber o que se passa à nossa volta, e para isso há liberdade de imprensa e de expressão. É certo. A prática é mais complicada do que isto. Mas há sempre um limite, por difícil que seja de traçar, e há quem o ultrapasse grosseiramente.

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publicado às 17:34