Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



As redes

por pedrop, em 05.12.15

Os murais das redes sociais são um espaço de solidão, onde não há grande espaço à verdade despida de teatralidade, nem à fraqueza, nem à dor. Transformamo-nos um pouco em estrelas de televisão, de naturalidade criada para o espectador. Ninguém partilha fotos num Instagram num momento despreparado justamente porque quem recebe está, no momento, despreparado e ninguém quer ver, de repente, essa humanidade toda saltar pelo ecrã em que nos refugiámos num momento de timidez. Por isso, quem está a sentir-se em baixo esconde o sentimento, ou desaparece, sem que se dê muito por ela, porque o mural segue desfilando imagens de quem se perfila a aparecer. É uma competição feroz por uma atenção efémera. Não há espaço. Não há tempo para a dúvida, para a hesitação. Quem escreve numa rede social deve ser direto, conciso, inquebrável no moral sobre o que está a dizer, porque vai ter críticas ferozes e, se se atrapalhar, o espectador deixa de lhe ligar atenção sobre tudo o que disser depois. As redes sociais aparecem, aí, como um sítio mais perfeito do que a realidade, alimentado por um círculo de vaidades procurando um pouco de atenção. Nem tudo é mau. Há quem perceba isto e, como bom humano, não caia na armadilha, procurando com o que escreve e partilha dar algo a quem lê ou vê. São os que tornam isto fascinante (tenho de admitir que as guerrinhas também são fascinantes). São os que refletem à parte, os que leram algo fantástico e publicam porque querem que vejamos o mesmo, os que se preocupam em oferecer uma experiência qualquer, seja um link, uma imagem jpeg ou uma música, duma forma brilhante, que parece que chega no momento certo, quando estávamos a precisar daquilo. Mas é sempre um exercício de audiência. Quando transpiramos dor num mural de rede social, até vamos ler muitos comentários de solidariedade. O problema é ver se essa solidariedade é perene ou momentânea e, sobretudo, se é dirigida a quem publicou a sua dor ou à tranquilidade de espírito de quem leu. No Fausto de Goethe, há uma afirmação que, a propósito, vale a pena ter sempre em vista: "ao instante só serve o que o instante cria".

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 22:58