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Até em Washington sopram outros ventos

por pedrop, em 16.02.15

O problema europeu não é a direita. Certo, a direita partidária deslocou-se mais para a direita, tornou-se cada vez mais economicamente liberal, inquestionavelmente empresarial, chegando a assumir uma política de classe que já não se via na Europa há muito. E isso tem efeitos quando a direita está no poder que podem ser julgados negativos ou até nefastos. Mas a direita tem hoje a sua posição definida. Sabe que ideias e interesses (digo-o sem tom pejorativo) quer servir, e consegue uma coerência mínima que lhe garanta a relevância política que tem tido. Já o centro-esquerda partidário perdera há muito a argumentação económica própria, dialogando mais à direita, o que talvez tenha sido inevitável. Mas hoje a sua essência está em plena regressão, mesmo onde não tinha abdicado de ter posição diferente (a igualdade reformista, o estado social misto, etc). É a sua razão de ser que está em causa e é surpreendente que, nesse contexto, permaneça paralisado. 

Perante o fracasso da austeridade, os partidos do centro-esquerda são incapazes de apresentar uma alternativa. Trata-se duma falência programática, um existir sem ser. Em França, o primeiro-ministro foi espantosamente honesto: de socialista o governo tem apenas o nome. O mesmo se passa em Itália. Mas essa falência também chega à dimensão existencial. Na Grécia, o Syriza ultrapassou o Pasok e depois venceu as legislativas. Em Espanha, o Podemos ocupa agora nas sondagens o espaço do PSOE. É o resultado daquela paralisia. O mais espantoso é que o debate interno nos partidos social-democratas da Europa se centre na imagem do líder, um tiro completamente ao lado, e pelas piores razões (apelando, nas bases militantes, somente ao desejo de vencer eleições para ter as vantagens do poder). Em Portugal, onde não tem havido erosão do centro-esquerda, tivemos a nossa versão desse tipo de debate vazio em termos programáticos, com a ascensão de António Costa no PS (que depois regrediu do ponto onde estava em termos de discussão e apresentação de ideias). Aconteceu a mesma coisa em Espanha, mas com um resultado um tanto mais trágico, porventura acelerando a erosão do PSOE. 

O que mais terá de acontecer para que os partidos socialistas e social-democratas europeus despertem para a situação? Parecem estar à espera que o problema desapareça por si, que as economias tenham algum ânimo após terem batido no fundo, para então ocupar novamente o poder (ou para o manter), exercendo-o da mesma forma, sem mudar nada no modo de pensar, como se o contexto do pós-guerra fria e do consenso de Washington não tivesse acabado. Até em Washington sopram outros ventos. Já é tempo de, na Europa, a alternativa ter um discurso alternativo - sem partir dos mesmos pressupostos da situação a que se opõe.

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publicado às 21:52