Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Canelada democrática

por pedrop, em 03.03.14

Histórico assessor do PSD, conhecido e com relativa boa reputação, deita tudo a perder e pontapeia jornalista, por causa de Miguel Relvas, que entrava no Conselho Nacional do PSD e que o dito jornalista tentava fotografar, tendo-se colocado fora do perímetro designado para a imprensa. Vários militantes e dirigentes políticos do PSD são vistos na imagem a caminhar próximos do episódio, observando de forma desinteressada, e entrando para dentro da sala do Conselho Nacional, como se nada de errado estivesse a acontecer. Questionado pelo Correio da Manhã, o assessor e funcionário anuncia que pediram desculpa "um ao outro". Restante comunicação social praticamente não refere o incidente, como se não tivesse acontecido. Partido Social Democrata não tem nenhum dirigente a pronunciar-se sobre o que aconteceu. Após o Conselho Nacional, em que Paulo Rangel discursou e Miguel Relvas tomou posse, são publicados vários posts na página de facebook do PSD, tanto durante a noite como já no dia de hoje, dando conta de informações sobre o que aconteceu na reunião. Nenhuma referência é feita à agressão contra o jornalista.

Sendo que o bom nome do funcionário do PSD não termina por um erro na sua vida, não se percebe como é que um assessor de imprensa com décadas de experiência parte para a violência quando sabe perfeitamente fazer as coisas com normalidade. Estava contrariado com o regresso de Relvas, forçado por Passos Coelho? Sente o anoitecer do PSD enquanto partido de poder em Portugal e, por isso, está nervoso? Nada justifica. Certo é que pediu desculpa, que foi aceite, o que o exonera de dar mais satisfações ao agredido e à opinião pública.

Mas não fica exonerado o PSD, que é entidade patronal do assessor e que, de forma surpreendente, até ao momento não se pronunciou, nem sequer no sentido de fazer saber que o funcionário tenha sido repreendido. Tratando-se de um funcionário seu a provocar o incidente, num evento oficial do partido, ainda por cima com militantes e eventuais seguranças que nem sequer intervieram, o mínimo que podia fazer era deixar uma nota sobre o incidente. Não precisava dizer muito: bastava lamentar o sucedido, fazer saber que tinha repreendido o seu trabalhador, e reafirmar o desejo de continuar a ter boas relações com a imprensa. Sem qualquer palavra, dá ideia que no PSD até se achou "bem feita a porrada" que o jornalista levou; ou, pior, que o PSD sai de fininho quando pode, em vez de fazer o que é correcto. Não se sabe sequer se houve, ou não, qualquer reprimenda.

E também não se percebe que, tendo uma câmara apanhado em flagrante uma situação desta gravidade, os colegas jornalistas não tenham dado destaque à notícia. Imagine-se, nos EUA, o que seria se um assessor de imprensa de Obama desse uns pontapés a um jornalista do New York Times na Convenção Democrata em 2012, e se ainda por cima a campanha de reeleição nada fizesse em relação a isso. Tudo isto é incrível.

Lá dentro, nesse Conselho Nacional, discursou Paulo Rangel, que há 5 anos criticava violentamente os incidentes constantes do Governo de José Sócrates com a comunicação social. Novamente candidato a deputado europeu, Rangel mantém o estilo apaixonado e centrado no opositor, mas não a substância da crítica. Se a mantivesse, teria de olhar para dentro. Para permanecer a forma, tem de oscilar o conteúdo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:13