Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Contributo para a ressurreição da social-democracia

por pedrop, em 25.06.15

Se o PS tem de ter um discurso, não indiferente, mas independente do que aconteça ao governo grego, devia ter como prioridade política o debate e a formação de ideias sobre a reforma dos tratados europeus. A atual liderança decidiu seguir um caminho diferente, e ilusório: dizer, e tentar fazer crer, que conseguimos resolver o problema da austeridade isolados, como se as regras europeias não existissem. Trata-se, no fundo, de recusar sair da zona de conforto que mais não é do que a mais pura invisibilidade, o eclipse científico-económico e filosófico-ideológico, em que o centro-esquerda está.

Sair da inércia é muito difícil, de qualquer forma. Mas o debate precisa ser substancial. O centro-esquerda sempre assumiu o europeísmo (nunca sem reservas, concentradas na ideia de união, não continental mas tropical, da lusofonia). E é contra a austeridade. Mas tem visto essas duas prioridades como antagónicas - ou escolhe a Europa com austeridade e liberalismo económico, ou escolhe a social-democracia numa economia em convulsão pela saída da "Europa". A crise do centro-esquerda é, por isso, um desafio à capacidade subversiva: vencer o ressentimento contra a União Europeia, com uma reconciliação e uma recuperação conservadora do consenso de integração e de afirmação dum mercado único, mas associadas à reconfiguração da natureza da União, assumindo um estado social europeu e admitindo políticas económicas e financeiras não ortodoxas, não capitulando em matéria de política económica e recuperando os princípios de governação da economia mista, da democracia económica e social, da redistribuição de rendimentos, do estado como operador económico ao nível da procura e da produção estratégica, da subjetização de tudo isso pelos direitos (individuais) sociais, laborais e económicos, o que torna o centro-esquerda diferente da esquerda mais radical. Trata-se de vestir a camisola europeísta do avesso.

Pode parecer contraditório, mas é o oposto: só desta forma julgo ser possível à social-democracia evitar cair em contradição quando resolva sair da indefinição e da inércia em que está, tornando-se consistente e assumindo as bases para ser, de novo, politicamente independente do comunismo e do neoliberalismo, independência que exigirá produção de conhecimento económico próprio e reflexão filosófica, o que é sinónimo de negação da ideia da social-democracia como pura intersecção entre duas orientações fundamentais e consistentes. O único elo possível para operar a associação entre o conservadorismo europeu (integração europeia existente) e a subversão europeia (estado social, política económica de matriz progressista e inconformismo perante as desigualdades e os choques do capitalismo) é a reforma dos tratados. É o combate mais difícil de todos no interior da UE, muito mais difícil do que o isolamento rotulado de eurocético, para o qual basta sair, o que não carece de compromisso. A responsabilidade exige que o centro-esquerda, na dimensão nacional, assuma que as regras económicas fundamentais são europeias e que, por isso, a prioridade para a mudança política, de que depende a existência da social-democracia, é a reforma dos tratados, ainda que isso não se coadune com as exigência do tempo eleitoral imediato. De qualquer forma, tal como o seu eclipse, a esperança no regresso da social-democracia é europeia. Não nacional, nem mundial (à espera de uma globalização mais justa).

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 03:03