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Da mulher como pessoa

por pedrop, em 08.03.15

Talvez fosse útil aproveitarmos os dias internacionais da ONU para refletir sobre temas concretos. No dia internacional da mulher, a questão mais óbvia é a violência doméstica, que afeta sobretudo indivíduos do sexo feminino em relações conjugais e paraconjugais (embora esteja a crescer a violência contra homens, ou pelo menos a denúncia dela). Julgo que não faz sentido aprofundar muito mais a resposta criminal ao problema. Já temos um quadro legal forte, que em certos aspectos até é mais duro do que aquele que existe para a generalidade dos crimes. Ir além disso implicaria possivelmente violar garantias fundamentais dos arguidos. Falta aplicar melhor o que temos. Todos já ouvimos casos de polícias que desvalorizam denúncias, o que indicia um problema de formação. Mas, antes de tudo, falta mudar mentalidades. Pode parecer pouco concreto, ou até cliché, mas este género de crimes levanta uma questão sobre o exercício da sensibilidade. A violência é mais insensibilidade do que ignorância. Também temos de desconstruir os mitos em torno da família e admitir que, se olhamos para o conceito como síntese de todas as famílias, tanto é o melhor como o pior sítio do mundo. Não se trata de rejeitar a ideia de família, mas não vale qualquer sacrifício em nome dela, nem pode ser tida como valor absoluto, sacralizado e portanto incontestável. E temos de olhar para a violência doméstica como um problema de igualdade. É uma fantasia achar que se pode ter uma sociedade estratificada, relações amorosas hierarquizadas e um discurso sobre o papel da mulher e não ter como consequência disso situações de violência. A igualdade das mulheres implica, desde logo, a igualdade no trabalho: basta olhar para o desemprego, que tem sido constantemente mais elevado no sexo feminino, ou para a diferença de remuneração, para perceber que a situação está longe de resolvida. A igualdade das mulheres implica também emancipação na vida pública e política, e é por isso que defendo as quotas, que são sempre transitórias. Mas implica ainda a coragem, que muitas vezes falta a muitas mulheres, de se envolverem, de assumirem posição e de discutirem frente-a-frente com homens, seja em que esfera for, de olharem, enfim, para si próprias como dignas de estar no mesmo patamar de interação social. Não é muito popular dizer-se isto, mas falta muitas vezes às próprias mulheres um conceito que se usa para os gays: assumirem-se. Não gosto de mulheres que se conformam, ou fingem conformar-se porque sempre se percebe o incómodo, e se encaixam naquele papel social típico quase de bonecas de porcelana. Detesto que os grupos de debate, político ou não, sejam tão masculinos, não por qualquer característica natural, mas pela fronteira invisível que se mantém, apesar dos direitos juridicamente conquistados. Em todas as minhas amigas procuro alguém que se preocupe em não deixar de pensar. Não percebo que alguém ainda hoje possa procurar algo diferente numa mulher - como, de resto, em qualquer pessoa.

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publicado às 21:10