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Deus nos livre desta direita

por pedrop, em 09.05.15

Lembram-se da direita contra a doutrinação de alunos do ensino básico? A direita que acusava os programas de disciplinas como a História de serem uma lavagem cerebral à boa maneira estalinista? A direita que se insurgia contra o ensino da constituição de todos na escola (pública, graças a essa constituição)? Agora andam a defender um módulo, no ensino obrigatório, dessa conhecida ciência que é o "empreendedorismo" ou, deixando de parte a ironia, desse discurso, algures entre a ideologia fast food e a banha da cobra, vendido a jovens incautos como método de desenvolvimento duma personalidade acrítica e subserviente sobre a sociedade. Conhecer os seus direitos fundamentais os miúdos não podem, que é o fim do mundo. Mas exaltar o interesse próprio de outros já podem e devem! Sim, já sabemos, não há cidadãos nem direitos fundamentais de todos, mas apenas contribuintes e patrões, com impostos a descer e IRS sobre o capital mais baixo do que o IRS dos trabalhadores, cabendo ao povo a "realidade" e as "possibilidades", sendo que "não há alternativa". Há liberdade económica, claro, só que sem alternativa. 

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Os módulos que estão a ser ensinados na escola pública em Portugal incluem, não só a exaltação empresarial acrítica, como “a família” (imagino como é que a família está a ser ensinada num curriculum destes). É um verdadeiro programa político conservador-liberal ensinado nas escolas de forma obrigatória, como se fosse ensino. Só falta oferecerem o "kit" com um santinho do PSD, uma ficha de inscrição na JSD, um livro de Hayek e um post impresso do Insurgente. Note-se que não quero, com isto, defender o fim da economia mista, no extremo oposto. Já tinhamos percebido que o ministro da educação encara o ensino público como uma linha de montagem de operários, sem dimensão de cidadania, divulgação de conhecimento e aprendizagem pessoal como valores per si numa sociedade democrática. Agora quer mais: quer que esses próprios operários sejam dóceis, e partilhem a visão do ministro, quer que, de pequeninos, sejamos uma população de Cratos, não em consciência mas à força, com módulos puramente propagandísticos obrigatórios. Não critico as pessoas que mudam de ideias, como eu próprio, só por causa disso. Neste caso, o problema é evidente: pode Crato ter saído da revolução cultural, que terá sempre o seu método de funcionamento no coração. Os restantes liberais, defensores acérrimos desta ideia, revelam uma vez mais que são mais ideólogos empresariais do que outra coisa qualquer, naquilo a que se chama o neoliberalismo. Deus nos livre desta direita, que o Messias parece que vai a caminho dela.

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publicado às 11:21