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Imaginemos

por pedrop, em 03.05.15

Vamos imaginar um jovem da África francófona e muçulmana, que se sente atraído por outros homens, e é bem inserido socialmente. Imaginemos que é adulto, bonito, duma boa família desse país. Imaginemos que nunca tocou noutro rapaz de tanto medo de ser descoberto e por não gostar do meio cru e sujo onde isso seria possível, que tem namoradas de fachada, que magoa sucessivamente enquanto se magoa. Mas sente diferente, e resta-lhe o consolo da internet, um consolo que desconsola porque lhe mostra outro mundo em que não tem de ser assim. Poderia deixar o país e viver no ocidente. Mas imaginemos que quer viver na sua terra, com a sua família, sentir-se realizado na sociedade onde cresceu. Resta-lhe um de dois males: tentar ser sincero consigo próprio, largando tudo rumo ao desconhecido, a um ocidente onde provavelmente será transformado num alvo de discriminação e onde nem encontrará trabalho decente, nunca mais vendo a sua família por ser repudiado na terra natal; ou manter o estatuto, as ambições e a família, com o custo de fingir perante si próprio, humilhando-se ao limite. Imaginemos que encontra um escape - continuar, adulto, a sonhar que um dia deixará de sentir o que sente por outros homens, porque no fundo é problema dele que terá de resolver sozinho, sem nunca o dizer a ninguém. Imaginemos que permanece assim o resto da vida. É uma merda.

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publicado às 22:24