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O charlatão

por pedrop, em 28.04.15

Fui chamado à atenção para o facto de o Patriarcado de Lisboa estar a promover uma conferência dum "conselheiro" que "trata" a homossexualidade "indesejada", caindo no mais atroz fundamentalismo. A notícia do patriarcado tem um link para o site do senhor onde se promove a cura forçada da homossexualidade "indesejada" de crianças. Revela dois aspetos interessantes. O mais óbvio é falar em cura da homossexualidade de menores, cuja vontade é substituída pela dos pais. Mas o mais interessante passa pela tentantiva de justificar a vergonha a que um homossexual é submetido desde criança a uma falta de vontade do próprio ser homossexual, como se fosse algo interior, desviando a atenção do opressor para o oprimido. Estas técnicas são conhecidas nos EUA por terem contribuído para a estigmatização que conduziu adolescentes ao suicídio, tendo sido proibidas em vários estados. Ao longo do século passado, vários métodos de tortura foram usados, incluindo a lobotomia. Entretanto, a homossexualidade saiu da lista de doenças mentais, pelo que qualquer tratamento constitui uma violação das regras deontológicas dos profissionais de saúde mental. Os cientistas na matéria também dizem que não é possível controlar a homossexualidade. Mas, mesmo que fosse, qual seria exatamente o problema de relações amorosas saudáveis, estáveis, desejadas, consensuais? doidos.png

Fui ver melhor quem é a figura que vem dar a conferência. Vejo uma entrevista dura, com uma jornalista lésbica que o rebate. Descobre-se a meio da discussão que o tal senhor que cura a homossexualidade é, ele próprio, homossexual. Claro. O seu tratamento baseia-se na sua experiência. Aliás, não tem licença para exercer nenhuma profissão de saúde mental. Enquanto garante que mudar de "opção" é uma questão de vontade, torna-se claro que é uma questão de vergonha e de medo. Casou-se (com uma mulher) mas continuou a ter relações com homens. Revela ele, de forma quase poética e impercetível, que teve novas "recaídas". Mas garante que, entretanto, se curou de vez. Chega a dizer que temos de passar a amar os homens de outra forma. Lá no fundo, está o subtexto: homens gays, façam sexo com outros homens mas não deixem que ninguém saiba e casem com mulheres para que a sociedade veja. É a velha máxima espartana: rouba mas não sejas apanhado. Toda a conversa é a dum charlatão. É um vendedor de banha da cobra que trama a vida dos seus iguais para se safar economicamente. Literalmente: foi ao Uganda quando o país discutia a pena de morte para praticantes de atos sexuais com pessoas do mesmo sexo, e o seu livro é hoje usado nessa guerra contra os homosexuais. Costumavam chamar a pessoas assim um traidor. Acha que nos engana a todos. Chateia os esquerdistas para ter fama, ganha dinheiro, enquanto tem recaídas, enquanto vive uma vida típica - o melhor de quatro mundos. Mas, claro, cada um pode escolher a vida que quiser, como diz a frase-escudo que ele faz questão de repetir para refutar demagogicamente a cultura de ódio e opressão de que ele próprio é um espantalho inconsciente, silenciado por ter dinheiro, aparecer em capas de livros e poder viver as suas contradições profundas sem ser incomodado. 

Este evento é promovido também pela Associação de Psicólogos Católicos. Há muito que se ouvem rumores sobre psicólogos que "tratam" discretamente miúdos gays de boas famílias. Seria uma boa oportunidade para começarmos a discutir isto, até porque não me recordo de nenhuma notícia, nem processos na Ordem, apesar dos rumores. Porventura, algum jornalista ou membro de direção da Ordem dos Psicólogos poderiam prestar atenção à conferência e estarem mais atentos a este assunto, agora que é mais público. Sobre o Patriarcado, resta a surpresa de o ver colado aos piores fundamentalistas religiosos, justamente num momento em que a Igreja Católica tem falado de respeito e procurado algum apaziguamento com toda a gente. Não é um sorriso calmo que faz esquecer o aniquilamento atroz do outro, assim como não é uma manipulação inteligente de transformação da vergonha em "falta de vontade" que legitima a opressão e a tortura que tantos ainda praticam sobre os homossexuais. Há tempos o Patriarca lembrava que os cristãos sofrem grandes perseguições. Não são os únicos. Falta tolerância. 

 

 

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publicado às 20:18