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O país de Mariano Gago

por pedrop, em 18.04.15

Não tenho tido muita vontade de fazer elogios fúnebres de pessoas que desconheço. Até critico aquela sucessão de posts de facebook. No fundo, é uma solidariedade de virar frangos. Quebro um pouco esta minha "desvontade" para falar de algo mais do que a pessoa. Mariano Gago representa um país que quis ser mais do que era, que quis ser desenvolvido, que quis viver pelo conhecimento. Representa o apogeu dum país saído das trevas do modelo das bolsas das Gulbenkian (nada contra), cujos apologistas (que os há) ficaram a ver saudade. Volta e meia, esse país sedento de desenvolvimento desiste aos saudosistas. Aconteceu no passado e acontece novamente. Já não somos aquele país de esperança, mas um que conta tostões. Somos hoje um país em que os miúdos dos secundário não têm os sonhos de que os adultos tinham tanta inveja e os saudosistas da "realidade" tanta raiva. Porque ouvem esses miúdos todos os dias os pais falar na dificuldade e o governo na competitividade salarial, e ficam com medo de continuar a ser um encargo, e sentem que continuar a aprender numa universidade já não é um investimento, que não vale de nada. Já não somos esse país de esperança generalizada, de que a ideia da ciência e da educação como avanço e como necessidade básica era expoente máximo. A morte de Mariano Gago tem simbologia própria nesse sentido. Não é tanto por ele que tantos estão a fazer luto, meio perdidos. É por esse país.

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publicado às 20:18