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O pecado reativo da esquerda

por pedrop, em 18.04.15

Tem tido muita adesão um discurso de que basta à oposição defender o estado social, contrariar a sua degradação. Eu próprio já caí nisto, mas é uma ideia de falsa facilidade e de conforto. Aparentemente é uma postura sólida, porque há uma construção, até física, a defender e muita gente deve muito ao estado social. Só que, na verdade, isto não coloca nada em causa. Não estabelece uma resposta satisfatória e afirmativa a um discurso forte da direita. Apenas reage, tentando resistir às consequências, como alguém que se limita a escapar aos socos de outrem. Até facilita um certo argumento falacioso da direita de que a recusa das suas ideias se deve ao privilégio, o que, como qualquer boa falácia, tem um fundo de verdade. Não faltam no debate os socialistas por conveniência, que não se dispõem a qualquer exercício de reflexão, que nem têm propriamente um quadro de ideias, antes se limitam a estar presentes pela pura defesa dum estatuto. É evidente que o contexto determina as pessoas, mas aqueles que só olham para a sua própria vantagem nesse contexto sem se interrogar não diferem em nada do empresário que acha que, por se ter esforçado e por ter tido sucesso, nada deve ao estado (nem à sorte) – estado que o educou e o ajudará caso o negócio vá ao ar, que trata dos funcionários da sua empresa quando estão doentes, que construiu as estradas e caminhos-de-ferro onde escoam os seus produtos, que criou o mercado como o conhecemos (abolindo os velhos direitos e superando toda aquela realidade a que chamamos feudalismo, estado que conforma uma realidade mais justa e igual, por isso, mais pacífica e satisfatória.

Não serve à esquerda o desígnio de apenas defender o estado social. Primeiro, é preciso ter uma conceção de justiça, uma ideia sobre a abrangência da ideia de igualdade e sobre o exercício da liberdade, conjugado com a dignidade humana. É isso o que distingue a esquerda. Precisa ter uma ideia do que deve ser a sociedade. Só depois, em função disso, é que se mobiliza a tecnologia mais apta, que é o estado, para aplicar esses princípios. O estado não é um valor em si, é uma tecnologia de ponta. É um guarda-chuva, carecendo de reflexão sobre o seu uso. É claro que, no próprio funcionamento da atividade do estado, se vão gerando novos problemas e novas perspetivas, ou a chamada legitimação pelo procedimento. A forma e a função do estado ganham importância. Mas elas terão de ser teleológica e axiologicamente referidas – isto se se pretende fazer um discurso que seja… de esquerda.

Não se pode dispensar um quadro de ideias abrangente e minimamente coerente (sem deixar de ter as contradições normais), em nome dum folclore político limitado a posições de força circunscritas a determinados eventos, condenado a sucessivas contradições básicas na essência do quadro de pensamento (um exemplo significativo é a simultânea defesa dos direitos laborais, restringindo a liberdade pela dignidade e pela qualidade de vida, e das barrigas de aluguer, já admitindo a monetarização da dignidade laboral pela liberdade). Ou em nome duma posição reativa face à mudança atual, permitindo à direita ter, paradoxalmente, uma aparência subversiva na sua defesa da desigualdade, do privilégio económico e da segregação social (isto é, a subversão para acabar com a subversão). O que faz mais falta aos que se dizem de esquerda é serem, de facto, de esquerda.

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publicado às 00:05