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O pensamento político de Isabel Jonet

por pedrop, em 19.03.15

Isabel Jonet continua em grande. Não, não é outra gafe desta vez. São gafes a mais para serem gafes. Algumas pessoas dirão o contrário, porque são complacentes e reconhecem o importante trabalho do Banco Alimentar, preferem não deitar tudo isso fora olhando para as declarações constantes de Jonet por aquilo que realmente são. São mais responsáveis em relação ao bom nome do Banco do que a própria responsável do Banco, que não se coíbe de manifestar constantemente o seu pensamento perigoso. 

Diz a filantropa que  "é realmente importante que isto se transforme numa cultura e que as pessoas interiorizem que a responsabilidade social é absolutamente determinante. Porque fazemos parte uns dos outros e porque vivemos numa sociedade que se quer inclusiva, em que todos têm o seu lugar, mesmo aqueles que são mais vulneráveis, que têm menos competências, que têm deficiências ou menor acesso ao mercado, por diversas razões. E portanto essa responsabilidade social começa em nós para se alargar a toda a sociedade." 

Jonet não quer acabar com a existência de "mais fracos", não quer eliminar a vulnerabilidade dos "que são mais vulneráveis, que têm menos competências, que têm deficiências ou menor acesso ao mercado". Quer ajudá-los dentro da vulnerabilidade. Mas não muito. "Houve um reajustamento, precisamente porque não era possível continuar da mesma forma." Vivíamos bem demais, numa espécie de paraíso utópico, o que "não tem só a ver com as famílias. Tem também, uma vez mais, a ver com toda a forma em que as pessoas viviam. As sociedades engordaram um bocadinho sem necessidade." Não era preciso termos vivido tão bem. 

Mas a culpa não é das pessoas, ignorantes, que "têm a legítima expectativa de viver melhor e de ter acessos a mais bens, mais serviços, mas têm de ter uma noção da realidade, daquilo que é possível." O problema foi a falta de "educação", para o voto de pobreza, suponho. Os poderes na sociedade cometeram o erro de incutir às pessoas a ideia de poderem viver melhor. "Essa noção da realidade é que foi mal passada pela comunicação social, mas foi induzida por todo um clima que convinha manter, que existiu na Europa e que hoje não existe." O nosso problema resumiu-se, então, à falta de paternalismo sobre os rendimentos excessivos das pessoas comuns, à falta de vontade dos mais poderosos para meter essas pessoas comuns no seu devido lugar, perdão, para educá-las para aquilo "que é possível". Ainda bem que isso mudou, e agora já temos na TV recorrentes avisos conscienciosos como "ai aguenta, aguenta" e "não comam bifes".

E o Estado, o que terá a dizer sobre a pobreza e a assistência social aos mais desfavorecidos? "O papel do Estado não é despiciente. O Estado deve potenciar e facilitar este tipo de respostas, sem se meter demasiado." Essencial é a responsabilidade social das empresas, que devem ajudar os que não se insiram, "por diversas razões", no seu mercado. A "realidade" significa manter a ordem das coisas, significa apenas um alívio dentro dessa ordem; os poderes da sociedade civil têm as expectativas e os estímulos no lugar certo para cumprir este desígnio de realidade, que certamente não é um programa político. O Estado, esse, ambiciona demais, pode mudar demasiado a ordem das coisas, convém que não se meta demasiado.

Mesmo que o poder público, desta vez europeu, tenha possibilidade de melhorar as coisas, não o deve fazer. Já fez até demais: "Hoje, fazemos parte de uma união que não pode penalizar quem incumpre. E não pode premiar uma situação que não é justa para os parceiros europeus. Houve uma vontade deste atual governo [grego] de mostrar que poderia exercer alguma pressão. E tudo aquilo que se vê é um reflexo terrível na população." Mais vale não tentar mudar nada, porque não se pode mudar nada. E, se se puder mudar, é melhor que nada mude. Aliás, é preciso continuar a educar as pessoas, para inverter o ciclo de pobreza mas também para termos a consciência daquilo que é possível.

O pensamento não tem falhas, nem momentos infelizes, é perfeitamente coerente. É assim que Isabel Jonet pensa. Tem um ideal político muito claro, que outros também tem. Difícil é perceber como é que alguém que dedicou a vida à solidariedade não queira soluções para diminuir realmente a pobreza e promover a igualdade material. Ou talvez se perceba, quando esse alguém precisa desesperadamente que os outros dependam de si, literalmente, como de pão para a boca. Deve ser uma boa sensação de poder, ter na sua mão a chave para aliviar uma situação dramática. Não tiremos a Isabel Jonet essa possibilidade de continuar a sentir tal auto-realização, mesmo à custa de manter tanta gente pobrezinha. Ninguém toleraria no espaço público um oncologista que nos viesse pedir que não tirássemos o amianto das casas, mas Isabel Jonet é totalmente diferente, claro.

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publicado às 01:09