Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



O que correu mal?

por pedrop, em 28.03.15

A propósito do desastre de aviação da GermanWings em solo francês, alegadamente provocado pelo copiloto, ocorre-me uma reflexão que, devo dizer, não é apenas sobre este caso concreto. Há um inconformismo crescente em resposta aos casos de tragédia. Perante qualquer episódio, interrogamo-nos logo: o que correu mal? Porque julgamos que o atípico é injusto e, quando daí resulte a morte, a nossa revolta contra a finitude da existência ganha um sentido minimamente razoável. Se há um responsável, já não esbarramos contra as leis da natureza e, por isso, já não temos vergonha de exprimir, mais do que a dor, o ódio da morte - agora com um objeto bem definível e ao nosso alcance. Trata-se da morte desnecessária. É o que acontece, de resto, em relação ao homicídio. Mas quando perguntamos "o que correu mal?", acontece algo mais. Interpelamos a própria sociedade, as regras que permitiram o crime e os mecanismos que potenciaram a formação dum ser humano apto a ser criminoso. Queremos mudar as coisas, para impedir que se repita; no fundo, numa espécie de autoredenção por termos permitido que aquilo que mais odiamos (a morte) se manifestasse como resultado dum ato humano no nosso contexto social. É evidente que, perante um homicídio em massa, essa urgência é mais forte do que num simples homicídio, por exemplo passional, do qual até nos podemos eximir pensando que na nossa família não acontece. Mas a questão acaba por ser mais o número de vítimas, independentemente das razões. Há algo de duplamente inaceitável num mesmo ato que provoque várias vítimas, face a vários atos que provoquem, cada um deles, uma só vítima,totalizando igual número. Talvez seja por espetacularizar a precariedade da vida, forçando-nos a um confronto num único tempo e espaço com a carnificina humanamente provocada, em vez do diferimento atordoante, que facilita o alheamento e produz um certo conformismo. 

Perguntarmos cada vez mais "o que correu mal?" tem algo de bom, porque significa que a nossa sensibilidade à desgraça tem aumentado. O sentido de preservação da vida humana torna-se uma exigência comum. A morte desnecessária é injustificável. A ideia de que há uma esfera inultrapassável de dignidade de cada um fica completa e se reforça com tal resposta a um nível universal. Mas também tem algo de mau, quando implica supor evitáveis todas as desgraças, levando-nos a concentrar totalmente nos meios de o garantir, acima de qualquer outra preocupação. Tem algo de mau quando, numa tragédia cujas causas nem foram ainda determinadas, como no caso do avião da GermanWings, nos apressamos a decidir novas regras de segurança para evitar situações (alegadamente) semelhantes que nunca antes tinham acontecido. É verdade, o facto de algo ter acontecido alerta-nos para a possibilidade de voltar a acontecer. Mas as decisões devem ser ponderadas. Negar o securitarismo na nossa vida coletiva implica rejeitar que se tomem decisões não urgentes em cima dum acontecimento, quando, objetivamente, não se apuraram as causas e, subjetivamente, há uma dor que nos leva à disponibilidade de fazer tudo (mesmo ferindo outros valores) para impedir que torne a acontecer. A propósito do caso do avião, não digo que sou contra, por exemplo, uma nova regra de 3 pilotos por voo, ou rever testes psicológicos. Já não fazem sentido as avaliações psicológicas altamente invasivas dos direitos fundamentais, ou responsabilizar familiares por não alertarem um comportamento estranho do parente à empresa onde trabalhe, ou tirar-se a blindagem das portas do cockpit no avião (curando um risco menor de pilotos suicidas à custa dum risco maior de terroristas a bordo tomarem conta do comando) - sugestões totalmente imponderadas. Digo que, perante uma tragédia, havendo tempo, é preciso saber esperar, ouvir, pensar e só depois decidir. 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 00:10