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O que levou Trump a ganhar?

por pedrop, em 13.11.16

1. As pessoas procuram sempre uma causa para um fenómeno. O que levou Trump a ganhar? Os debates enchem-se de intervenientes nas redes sociais, cada um ficando "procurador" de uma única causa. É sempre bom ter uma certa distância, para quem vê de Portugal. Não gostaríamos de ter americanos a pronunciar-se sobre o nosso sentido de voto com paternalismo ou superioridade. Evito fazê-lo porque não devemos cair nem na ingerência, nem na falsa ideia de que somos eleitores virtuais dos EUA. Trump venceu porque entrou num grupo de estados, numa região que Clinton deveria vencer, sem que esta fosse capaz de ganhar em estados a sul tradicionalmente republicanos, mas à beira de mudar por razões demográficas (Georgia e Arizona). As causas e as ilações a tirar serão relativizadas se, como tudo aponta, Clinton tiver uma vitória significativa sobre Trump no número total de votos, ao contrário do que acontece no colégio eleitoral. A questão fica mais circunscrita. Não se poderá dizer que os eleitores fugiram de Clinton, que esta era a pior escolha possível, que os democratas precisam duma revolução interna. Poderá dizer-se que os eleitores não fugiram de Clinton, e que, sobretudo, se distribuíram de forma ineficiente. As causas são sempre várias, mas são também relativas, por muito que, como alguém me dizia, os comentadores procurem sempre conclusões redondas sobre um resultado provocado por detalhes casuais.

Não são alheias à misoginia que sempre há perante uma candidata mulher - mais difícil sendo candidata de esquerda (para uma candidata de direita é mais fácil, porque já tem ao seu lado o eleitorado onde costuma haver mais misoginia). E não são alheias ao racismo e à xenofobia instigados pelo candidato Trump. Há quem tente agora dizer que se devia ter silenciado o repúdio a esse discurso, como se alguém indignar-se com a monstruosidade fosse o problema da monstruosidade, não a própria monstruosidade, relativizada, menorizada e até justificada por pretensos defensores da liberdade de expressão. A base de apoio de Trump, os apoiantes estridentes que o projetaram, é certamente xenófoba. Outros viram tudo isso, mas não quiseram saber. É certo que há quem se perca nesta indignação, sem ver além da questão da xenofobia - mas isso não é motivo para a negar de forma tonta, porque existe e está à vista de todos.

A derrota de Clinton vem duma região que tomava por certa - o chamado rust belt, zona industrial no centro-norte, que constituiria a "firewall azul" dos democratas. As razões para a vitória de Trump aí nessa região não serão alheias ao discurso de recuperação de empregos perdidos por outros mais precários - com soluções simples para problemas complexos. Há problemas na globalização, mas o que Trump oferece é pior. Se existe algo de consistente no seu discurso sempre contraditório, falacioso e enganador, é colocar a fonte do problema num inimigo externo, de cor, religião ou língua diferentes. A solução passa sempre por responder a esse inimigo, reprimindo-o ou, no melhor dos casos, ostracizando-o. É um discurso viral, muito difícil de combater, mas que se julgava hoje impossível. Não era impossível, como não é impossível a ascensão de tempos negros na Europa, de recusa do Outro, de negação dos mais básicos deveres de humanidade para com os refugiados, por exemplo. Trump procurou responder aos problemas dessa classe trabalhadora, dando-lhe inimigos incapazes de lhe responder - a China e os mexicanos nas questões económicas, os muçulmanos e os negros nas questões de segurança. Clinton combateu esse discurso, mas não ofereceu o suficiente a essas pessoas numa região que, não obstante, obtivera um apoio importante dos democratas e da própria Clinton no "bailout" da indústria automóvel. E foi demasiado hesitante nas posições sobre os acordos comerciais. 

 

2. Normalmente, quando alguém perde, quem comenta procura inserir todas as suas divergências como causas determinantes da derrota, tenham elas sido efetivamente relevantes ou não. Nestas eleições americanas, vemos muito isso, entre alguma esquerda portuguesa ou entre alguns anti-elitistas, quando Trump é profundamente elitista, sendo também um demagogo. Vemos isso entre aqueles que, por preconceito e misoginia não assumida, criticam em Clinton o que não criticam num homem político - a dureza, o carácter maquiavélico, os negócios. Posso invocar as minhas razões, como português. Gostaria de ver os EUA menos interventivos, quando Clinton pretendia ser uma presidente mais interventiva do que Obama. Nomeadamente, a ideia de exportar a democracia à força continua viva, apesar de ser evidente que não funciona, só servindo para mudar regimes que não constituem qualquer ameaça à paz internacional mas que se mostraram incómodos. Não é assim que se expande a democracia. Trump criticou isto duma perspetiva isolacionista, mas é possível que tenha sido mais uma crítica puramente retórica. Não me parece que tenha sido uma questão determinante para o resultado das eleições americanas. Até porque Clinton teria sido melhor para a defesa dos interesses estratégicos americanos - é das pessoas mais experientes na matéria no país. Trump, visivelmente, não tem condições de o fazer, podendo eventualmente delegar em quem tenha. É uma incógnita, e por isso mesmo poderá dar margem de manobra aos países emergentes, entre os quais a Rússia. No entanto, poderão sair mais fragilizados aliados como a UE, cuja generalidade dos membros integra a NATO. Para quem olha dum país tranquilo como Portugal, é uma questão de perspetiva.

Um problema evidente e concreto de Clinton foi o caso dos e-mails. Abstenho-me de lhe chamar escândalo. Terá havido interferências externas, levando a que e-mails que nem sequer tinham a ver com o caso fossem divulgados em pacotes, submetendo ao escrutínio as conversas internas de campanha de um só lado durante a própria campanha, o que é algo impensável em qualquer país. Como seria em Portugal se um só partido tivesse as conversas privadas dos seus líderes devassadas durante a campanha, em benefício objetivo do adversário? O caso dos e-mails relevante trata, não do seu conteúdo criminoso, mas da forma como foi gerido o sistema informático, eventualmente criminoso por falta de cuidado na gestão de segredos de estado. Houve um viés de confirmação - supunha-se que Clinton seria corrupta e conspirativa; logo, um caso obscuro de e-mails seria um exemplo da corrupção, uma descoberta do ato de conspiração. Trata-se dum elemento que convoca o preconceito em relação às mulheres. É evidente que Clinton tem responsabilidades em ter utilizado um servidor privado, e tudo poderia ter sido evitado. Mas a reação é significativa. Não é por acaso que o evento circunscrito que mais afetou Clinton foi a carta do diretor do FBI sobre o tema a dias da eleição, outro aspeto muito questionável. Por comparação, com Trump, os sucessivos casos foram sendo desvalorizados. Que seria de Clinton se, por exemplo, não divulgasse os rendimentos?

 

3. A possível vantagem significativa de Clinton sobre Trump no chamado voto popular não tem implicações institucionais, mas tem implicações políticas. Se for significativa, a ponto de Clinton ficar apenas abaixo da votação total de Obama em 2008 e 2012, muitas ilações para os democratas que vêm sendo tiradas terão sido precipitadas. O tempo institucional não é o tempo mediático em que se têm asseverado juízos definitivos e sempre substituídos por outros igualmente definitivos. Os eleitores, afinal, não terão fugido de Clinton, e os problemas para os democratas que resultam desta eleição são relativamente circunscritos. Faltaram propostas mais ambiciosas e uma atenção especial à região do rust belt. Embora necessite de "estrelas" políticas, o partido democrata não tem de sofrer uma revolução por causa deste resultado, sendo certo que pode concluir de forma diversa, até pelo choque da derrota. Na verdade, o problema maior que enfrenta resulta, não das presidenciais, onde tem tido votações históricas, mas das legislativas, onde tem sido derrotado sucessivamente. Ao contrário do que vem sendo dito, não acredito que Bernie Sanders se desse melhor contra Donald Trump. 

O candidato vencedor não tem qualidades? É evidente que sim. Trump é carismático e consegue falar com as pessoas comuns, enquanto o discurso dos democratas se tornou demasiado elitista. Há aspetos de Trump que têm piada, que geram empatia, e não é problema dizê-lo - se não se deixar de repudiar o que ele defende. Trump é também devastador. Nestas circunstâncias, tudo indica que conseguiria mais o menos o mesmo com qualquer adversário hipotético à esquerda, com a exceção de Obama, o incumbente, que todavia não poderia recandidatar-se. Ninguém gosta desta ideia justamente porque tira ilações redondas sobre aspetos casuais. Teria de haver alguém que gerisse o fenómeno, "alguém que pensasse como eu", ou um homem... 

Trump fez uma campanha eficiente. Soube colocar os media contra si próprios e teve um espaço de antena gratuito que nunca ninguém teve. Propõe mais investimento público, algo de que os EUA invariavelmente necessitam. Ninguém sabe o que Trump pensa, se é, realmente, racista ou se decidiu instrumentalizar o ódio racial, os supremacistas brancos e as teorias da conspiração como plataforma, de forma cínica. Não quer isto dizer que a maioria dos apoiantes de Trump faça parte dessa plataforma, mas é a sua base de apoio, e não é difícil crer que chegue a boa parte desses eleitores. Existe sempre uma dúvida entre o que um político pensa e o que faz, mas a atuação é sempre condenável. O que aí vem é uma incógnita, mas vai ficando definida uma equipa muito mais à direita na economia e na política externa do que Trump dava a entender na campanha.

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publicado às 02:36


2 comentários

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De José Ferreira a 15.11.2016 às 20:37

O que levou trump a ganhar foram as políticas de obama. Má politica afastou as pessoas,e na europa, vai acontecer o mesmo, esta política do "politicamente correcto" leva as pessoas a irem ao encontro de quem lhes promete aquilo que realmente querem.
Depois admirem-se.

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