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O que nos deu a Grécia?

por pedrop, em 02.02.15

O que me deu a Grécia? Volto aqui numa noite de insónia. Deu-me Platão. Descobri-o agora. Já o conhecia desde a filosofia opcional do secundário. Na altura não gostei, aliás detestei o "Górgias". Seguíamos todos a receita dos professores e aquela sublinhava a cores, conforme a personagem interveniente. Às vezes, é difícil saber quem fala em Platão. Não sei se é da tradução ou do próprio, mas noto alguns enganos na ordenação das falas. Aquele livro, de tão colorido que ficou, deixou-me enjoado. Não conseguia perceber o fascínio por Platão. Mas ando pela filosofia política - contemporânea. Queria ler Rawls e não havia. Vi na prateleira a "República" e decidi que era desta que ia tentar. Foi há dias. Já tinha passado por referências, numa história do comunismo que fica para outro dia. Já me tinham dito que os clássicos têm lá tudo e que somos arrogantes pela presunção de achar que tudo o que temos é graças à nossa época. Também, sempre me falaram na dificuldade que é ler Platão, e eis que me deparo com este texto, que leio a correr, como quem devora, sem perceber que dificuldade era essa. Minto. Percebo: tem muita coisa, faz-nos pensar, seduz-nos ou nos faz hesitar perante ideias totalmente controversas, destino cruel da obsessão pela coerência. Mas não é "difícil" de ler, porque é viciante. Seria extraordinário se fosse escrito hoje, fico ainda mais surpreso por vir de tão longe no tempo, e por prever tanto dos dilemas atuais. Não tem tudo, mas tem muito. Ainda não o terminei. Sei que já se tornou num dos livros da minha vida.

Comecei a ler a sério há pouco tempo. É costume criticar a literatura "lite", dos policiais aos thrillers e aos folhetins, por fazerem perder tempo ao leitor, ou por o tornarem idiota. Por vezes, acredito que é assim. Depois, lembro-me (e lembro a mim próprio) que sou um exemplo dum efeito oposto, o de trazer facilmente uma pessoa aos livros, e de leitor até leitor de qualidade vai outro passo. Os primeiros livros que li foram contos minúsculos que comprava quando estava no fim da escola primária nos fins-de-semana, já nem me lembro do nome que se dá àquilo. E depois Harry Potter, e Dan Brown. Tentei ler Ms. Dalloway e parei a meio sem saber o que estava a fazer. Resolvi investir no "real", história, política, jornais. Entretanto, há um ou dois anos, percebi que tinha medo de ler o mítico, o que também é uma forma de preconceito, e saltei para a descoberta do que estava no topo, por curiosidade. Descobri que Saramago, Savater, Yourcenar eram melhores do que um mito: estavam ao meu alcance. Nem eram uma tarefa a alcançar para demonstrar uma mente brilhante e estatuto cultural. Isso é o que resulta, não dos livros, mas da própria mentalidade dos seus leitores socialmente mais elitistas, aparentemente cultos mas embrutecidos pela defesa do seu estatuto, que a meu ver é, na verdade, a negação da própria cultura e da própria ciência. É claro que é distinto pensar no que se lê, mas o pensamento é um direito, não um dever.

Há muita gente que não encontra em si a disponibilidade para refletir e não é culpa sua, mas da falta de tempo, do emprego repetitivo que bloqueia e que quando se chega a casa só dá vontade de ver qualquer coisa que distraia, da família que só dá problemas e suga toda a atenção, da infância em que ninguém se preocupou em educar para a cidadania e para a cultura. É um direito ler os melhores e mais aclamados livros. É o que falta dizer para que sejam mais e mais lidos.

Não deve haver nenhum ponto de chegada, a não ser onde quer que a razão nos leve (adapto uma passagem da "República"). E não há leitores ideais, como constatava uma repórter da TVI, ontem, ao se deparar com um inesperado leitor dos clássicos russos, típico lisboeta. Também não há cidadãos ideais, nem pessoas ideais, nem uma Grécia ideal. Pode ser difícil de perceber, mas os erros dos gregos não justificam o sacrifício a que foram submetidos. Também não se compreende que isto não seja já consensual, por maiores que sejam os instintos egoístas dos outros europeus. E sim, sei que a Grécia de hoje não é a Grécia antiga. Mas, a qualquer das duas, obrigado pelo que restou. Se há um padrão naqueles lados, é o de enfrentar a decadência, deixando um legado de grandeza de pensamento e avanço intelectual para toda a Europa.

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publicado às 02:55