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Os gordos

por pedrop, em 23.03.15

Não raro, os preconceitos mais habituais são postos em causa, logo emergem outros. Já cá andavam, e não tinham tanta visibilidade, ou ganham mesmo força como novo mecanismo de exclusão. Alguns até são manifestados alegremente pelos mesmos que vinham pondo em causa os anteriores - quando interpelados, defendendo-se com o tipo de argumentos que antes criticavam. Não é muito difícil racionalizar o preconceito, assim como costumamos, ex post, traduzir em palavras os nossos sentimentos. E todos temos preconceitos, mas a sua censurabilidade também depende do objeto: uns magoam injustamente as pessoas, e uns magoam mais do que outros.

Serve o intróito porque quero falar num preconceito, tão comum atualmente quão pouco questionado, em relação ao peso das pessoas. Aparece um político gordo na televisão. Não é muito difícil imaginar que tipo de comentários se vai ler sobre o político em causa, se se for ao twitter naquela hora. Entra uma jovem bastante obesa no café e, na mesa ao lado, começa um grupo a rir-se e a fazer piadas sobre gordos, com o comentário, a meio: "que nojo". É algo que me afeta pessoalmente, porque sou gordo, já fui e muitas vezes sou alvo deste tipo de preconceito, injustificado sob qualquer ponto de vista, ou seja, ignóbil. Tende a ser desvalorizado, porque historicamente não é consistente. Tempos houve em que o peso era símbolo de riqueza e fertilidade. Mas, se é algo que emerge e que afeta hoje pessoas concretas, é eticamente relevante falar deste estigma como de qualquer outro - e a rejeição desta ideia é comum pela pouca contestação social que existe, a sugerir que o problema, infelizmente, tem potencial de aumentar.

Não é o carácter inócuo do preconceito contra os gordos que leva a esse conformismo, como não fora o carácter inócuo da homofobia a afirmá-la na sociedade vitoriana. Um efeito concreto é a discriminação no emprego. Há estudos que demonstram e abordam o problema (vide aqui, aqui e aqui, por exemplo). Em que quadro moral é tolerável uma percentagem significativa de obesos recusados pelo empregador, não pelas credenciais profissionais, mas por causa do peso? Simplesmente, não é tolerável, nem mesmo quando se diga que os clientes da empresa em causa querem ser atendidos por funcionários em forma - esse argumento foi usado para justificar a discriminação laboral com base na cor da pele. O problema tem de começar a ser confrontado por algum lado. Uns dirão que, por vezes, a obesidade chega a ponto de afetar realmente a capacidade laboral do trabalhador. Não há um único grau de obesidade, há pessoas mais e menos gordas. Mas, nesse caso extremo, o que separa a obesidade da deficiência? Nada, disse o Tribunal de Justiça da União Europeia. E é precisamente por causa da menor adaptação que os deficientes gozam dum quadro legal favorável. O princípio da igualdade rejeita a estratificação, implica tratar melhor quem está pior.  

O estigma do peso no local de trabalho é mais grave nas mulheres do que nos homens, o que não surpreende. É o que acontece também fora do contexto laboral. Há rapazes que escondem a namorada gorda para não serem alvo de chacota do grupo de amigos - já vi isso acontecer, e é profundamente doloroso. É mais raro o inverso. Namorar uma mulher gorda é socialmente pior do que namorar um homem gordo. Porque a aparência pressiona particularmente as mulheres, e a aparência 'correta' passa por não ser obesa. Mas há pessoas que gostam de gordos, que se sentem fisicamente atraídas por pessoas rechonchudas. Não se ouve falar muito disso, não porque não aconteça, nem por vergonha natural, mas porque o embaraço é sempre social, e surge do estigma. O problema não está em não se sentir atraído por pessoas gordas, ou magras, ou em sentir isso. Está, justamente, em quem estranha e se surpreende que haja esses amantes de pessoas gordas. A estranheza é, aliás, sintomática do quão grave é o preconceito. Como disse, não quero que se imponha nenhuma obrigação de atração sexual por tudo o que mexa, nem que se deixe de dizer o que se acha bonito. Mas não somos animais puramente instintivos para desconsiderar tudo o que não nos sirva sexualmente. Há quem diga que é questão de estética. Só que também não é muito dificil encontrar quem justifique não gostar de negros porque acha feio um tom de pele mais escuro. Submeter a dignidade das pessoas a um juízo subjetivo sobre o seu aspeto não é propriamente aceitável.

As considerações estéticas mudam facilmente ao longo dos tempos, e é o que acontece em relação ao peso. Mas a questão é mais profunda. O que quer que seja esteticamente (des)valorizado, quais são as consequências? A aparência importa, mas importa quanto? Vale a pena ler esta crónica no Washington Post, há uns tempos. Lembra-nos que a presença pública de pessoas mutiladas ou deformadas chegou a ser proibida por lei. Para falar no impacto presente, os estudos científicos: nos EUA, a percentagem de pessoas afetadas no trabalho por considerações estéticas em relação ao seu corpo é comparável aos números da discriminação laboral sexual e racial; essas considerações estéticas distorcem, ainda, avaliações académicas, o percurso escolar de crianças, e até penas criminais.

Há dois outros argumentos que tentam justificar o preconceito sobre o peso (que também valem para algumas das questões estéticas em geral). Um deles assenta na capacidade de mudança, havendo vontade. A discriminação aos gordos serviria, então, de estímulo para mudar. O segundo argumento é o de que a obesidade é sintoma dum mal psicológico que tem de ser corrigido. Note-se que nem sempre um obeso pode mudar a situação (pense-se em problemas de saúde como a tiróide, ou outros). Mas, ainda que possa, parece óbvio que não merece ser desqualificado pessoalmente em função disso, apenas porque alguém não gosta dessa característica. Uma pessoa homossexual pode evitar ter relações sexuais com outras pessoas do mesmo sexo para evitar ser discriminada (é, aliás, um argumento usado em setores conservadores). Uma pessoa negra pode fazer tratamentos para aclarar a pele, usar maquilhagem e esticar o cabelo. Mas devem estas pessoas ser coagidas a isso, apenas por viverem numa comunidade em que muitos não toleram essas características, havendo possibilidade de as reverter ou diminuir? Além disso, em nada, absolutamente nada, a discriminação funciona como estímulo, pelo contrário: provoca declínio na saúde emocional e física do alvo. Por outro lado, é óbvio que pode haver uma história de vida a levar uma pessoa a comer mais do que necessita para sobreviver e ser saudável. Mesmo que assim fosse sempre, só seria mais um motivo contra a humilhação. Mas dizer que é sempre assim, ou focar nisso, implica negar que haja pessoas gordas inteligentes e capazes. Além disso, também se discute se a homossexualidade não resulta, em muitos casos, de experiências de vida na infância - não é por isso que deixa de ser socialmente aceitável, nem se foca essa aceitabilidade nas causas.

A aparência é dos maiores focos de estigma social num tempo que rejeita o racismo, a xenofobia, o machismo e a homofobia. Como todos os estigmas, é histórica e socialmente situado. Tem uma história, que é repetida pelas personagens estigmatizadas na televisão e no cinema, do gordo como bizarro. Não quero, com isto, rejeitar que a gordura possa ser objeto de humor (nem o negro, o judeu, a sogra ou o muçulmano), mas o humor inclui bom senso, não pode ser pura legitimação e transmissão de estereótipos. É óbvio que uma cultura de massas em que pessoas obesas sejam repetidamente reduzidas a uma caricatura é uma cultura que educa crianças e adultos para a discriminação.

Quero, apenas, que tudo isso valha o que vale. Discriminar pessoas pelo seu peso não tem justificação. O caminho passa por legislação anti-discriminação em função do peso e da aparência no local de trabalho. O preconceito na comunidade só se resolve duma forma: denunciando pela imoralidade que é. Quando alguém diz que estar num círculo social em que esteja um gordo lhe dá "ânsia de vómitos" e que, se não quisesse ser discriminado, então "que fosse para o ginásio", o que deveria dar "vómitos" a toda a gente era o 'pensamento' desse alguém. Este é mais um preconceito que gera crimes de ódio - ou não é isso o bullying, sob a forma de crimes contra a honra ou de crimes contra a integridade física? As pessoas gordas, como eu, precisam deixar de ter vergonha de ser quem são, quer queiram emagrecer, quer não. Precisam deixar de encarar a si próprias como o problema, assimilando um discurso de humilhação, para passarem a ver que o problema é o agressor que as estigmatiza como pessoas por causa dum número na balança. Precisam unir-se para dizer: basta. E as pessoas que têm um discurso emancipatório contra todas as formas de exclusão deviam começar a falar nisto, sob pena de permitir que piore ainda mais.

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publicado às 12:23