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Quanto vale uma vida?

por pedrop, em 23.04.15

Talvez seja melhor perguntar quanta xenofobia vale uma morte. Cerca de 100 mil vidas foram salvas o ano passado no mediterrâneo. Na década precedente, mais de 16 mil pessoas tinham morrido a tentar atravessar um mar tão calmo. Em 2013, em resposta ao escândalo dos naufrágios de migrantes transmediterrânicos, nomeadamente, após dois naufrágios sucessivos (como agora é noticiado), o governo italiano criara uma operação especial. Chamava-se "mare nostrum". Durou um ano, investiu 114 milhões de euros - motivo para ter sido desmantelada, apesar da eficácia. Substituiu-a uma operação europeia, liderada pelo Frontex (a agência migratória), de nome Triton, cuja competência nem é de busca e salvamento. Os meios, monetários, de navegação e humanos, escassearam. O número de mortos decuplicou. Voltámos, este ano, à média da década passada: cerca de 1700 mortos contra menos de 100 no ano passado. A justificação para o desinvestimento é sempre a mesma. Salvar vidas humanas aumenta o número de traficantes. Nota-se... que não é verdade. Mas mesmo que fosse, é válido deixar morrer dolosamente milhares de pessoas por ano no nosso quintal para desincentivar a imigração ilegal? A menos que se considere essas mortes um sucesso, a operação europeia é um fracasso. Ninguém ligou. Agora, morreu mais gente num só momento. Como já escrevi aqui, ligamos mais à mortandade de muitos num só ato do que quando as mesmas mortes se dão isoladamente. Migrantes transmediterrânicos morrem em massa, a UE tenta fazer qualquer coisa, manda-se reunir os dirigentes políticos, ninguém quer ficar com a responsabilidade por uma operação decente, com um custo de 0,0001% do PIB europeu.

Pergunto-me onde andarão os intelectuais europeus, também os não intelectuais, que tanto repudiaram o muro na fronteira EUA-México quando foi anunciado por Bush. É fácil criticar o muro dos outros, a xenofobia, o desinteresse pelas suas vidas. E quando somos nós? E quando a Europa deixa dolosamente morrerem tantas pessoas num muro de água, isto quando não as "salva" para meter num campo de detenção, verdadeiras penas de prisão sem julgamento prévio, sem direitos de condenado, fazendo lembrar outros tempos mais sombrios? E quando, finda a "pena", se manda toda essa gente de volta, muita dela para a morte certa? É sempre mais fácil apontar a xenofobia, o desinteresse e o abuso dos outros, de preferência se for um red neck, mesmo que façamos muito pior. Consolarmo-nos, enquanto europeus, na convicção de sermos o exponente máximo de civilidade, tornando isso num estatuto, é cair em falso, é logo a primeira negação da própria civilidade. Mesmo que seja apenas uma exceção, sendo só em relação os outros, não é difícil acabarmos fazendo o mesmo entre nós próprios - basta que olhemos uns para os outros como "o outro". Quando caímos no bizarro na análise aos americanos preconceituosos e intolerantes, estamos já a ser preconceituosos e intolerantes. E torna-se fácil prever que faremos coisas semelhantes ou piores, em relação ao próprio objeto da intolerância que criticamos. Porque não criticamos apenas a intolerância, mas humilhamos já o outro. E não há alvo mais fácil do que o "outro" objeto de intolerância do nosso "outro" objeto de intolerância. Quando somos nós, já não é xenofobia, claro. Eles vão invadir-nos se não formos duros, se não os deixarmos à morte ou, pelo menos, num campo de detenção meses a fio, sem direitos, a serem violentados porque não há controlo e ninguém (europeu civil ou jornalista) lá entra. Enquanto a Europa for assim, neste e em outros assuntos do género, não temos qualquer moral para criticar a ignorância, a intolerância e a falta de cosmopolitismo de quem quer que seja.

Ninguém disse que temos de abrir todas as fronteiras. Talvez um dia haverá tal interligação mundial e uma cidadania global para isso não ser problema. Ainda não é assim, mas nada justifica o que fazemos aos migrantes transmediterrânicos. Muitos dos que deportamos são verdadeiros refugiados que deviam ter direito a asilo. Quanto aos meros imigrantes, a Europa vai encolher demograficamente e precisa de mais gente. Há uma coisa a impedir-nos de a acolher e não é a nossa autopreservação enquanto cultura. Porque não creio que alguém fosse impedir uma política de integração social mais alargada. Já temos a infraestrutura para isso, falta pô-la em ação - os assistentes sociais a acompanharem a adaptação e a proporcionarem integração de filhos e netos de imigrantes, as escolas a ensinarem a língua e a cidadania, o estado a impedir a formação de guetos e a promover a convivência física de pessoas diferentes no contexto urbano, sendo verdade que é preciso evitar o paternalismo que isto arrisca.

Logo se percebe que mesmo a mera política de fronteiras é um curativo para o problema. Como ouvi em tempos a um jurisconsulto brasileiro, polícia é o que se usa quando a política falhou. Em suma, a Europa precisa:

- Perceber que necessita de mais imigrantes, que isso a favorece a sua economia e a sua demografia - dentro de regras e com política de fronteiras, é certo;

- Em consequência, permitir a legalização de muitos dos atuais ilegais, flexibilizando, sem eliminar, as regras internas que são das mais apertadas do mundo (múltiplas vezes mais do que as dos americanos que tanto se critica). Noto que Portugal até é dos mais tolerantes na matéria;

- Ter uma execução da política de fronteiras e de imigração que seja humanitária, que respeite os indivíduos e trate os estrangeiros como pessoas, e os imigrantes ilegais também, negando o populismo de afronta ao outro para afirmação interna de lideranças políticas;

- Conceder asilo a quem necessita de asilo, que é quem foge da morte, da tortura, do sofrimento extremo, requisito que atualmente está longe de satisfeito;

- Estimular economicamente os estados a sul do mediterrâneo, com programas de apoio ao desenvolvimento, parcerias económicas, planos de educação com fornecimento de materiais e missões humanitárias de professores, porque a esperança, e não o medo, é a única forma justa e legítima de fixar essas populações - tão humanas, tão desejosas de uma vida próspera, quanto nós. 

O que nos impede de acolher os imigrantes de que nós próprios precisamos, na Europa, é a xenofobia que, esquecemo-nos, persiste nos nossos instintos mais profundos, por termos avançado tanto, porque a combatemos tanto no pós-II guerra para que nunca mais chegasse ao ponto a que chegou. Queremos tanto esquecer que até nos esquecemos que aconteceu há tão pouco tempo. É um medo do mesmo tipo que nos leva hoje a aceitar, de forma tão generalizada, ativamente ou em silêncio, mas sempre acrítica, o que sabemos nos outros ser tão inaceitável.

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publicado às 01:44