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Relato dum relato

por pedrop, em 03.04.15

A igreja. Um homem do norte na RTPinfo perguntado sobre transladação do corpo para a capital: "eu quero ver é Lisboa a arder!". já esteve mais longe.. Entrevistam os tradicionais voyeurs que só vão ao cemitério para ver: "sim, trabalhou com aquela atriz francesa que já não sei o nome". O jornalista insiste numa voyeur: "acho que, depois da Amália e do Eusébio, também ele deve estar no panteão". Agora passaram para a porta da igreja, a jornalista queixa-se que fecharam a porta aos jornalistas e diz quantos minutos dura a cerimónia. "Podemos dizer que vai ser um funeral ao mais alto nível" - podia ser uma frase dum livro do Saramago a gozar com os jornalistas. Segue-se um plano fechado do espaço no automóvel onde ficará a urna do corpo. O jornalista anuncia o caixão prestes a sair da igreja, a câmara faz zoom, a jornalista diz: "há palmas, há palmas!". O caixão saiu, a jornalista descreve cada um dos elementos que a carrega e termina "as palmas! Podemos ouvir esse som". Uma câmara escondida atrás dos arbustos filma o bispo. A câmara passa aos responsáveis políticos: Passos Coelho ouvindo entediado uma anónima. A jornalista sugere ao câmara que filme a viúva: "não sei se podemos ver". "DONA ISABEL ENTRA NO CARRO". Caixão num carro, viúva no outro, jornalistas a encher chouriços: "agora pode haver até sorrisos nos abraços tristes" diz o pivot. A jornalista procura Cavaco: "não sei se já está no exterior", "está está", corrige o pivot. A câmara que está atrás dos arbustos encontrou Cavaco. John Malkovich avistado: vai a andar apressado e a câmara segue-o. "John Malkovich não quis hoje produzir declarações". Momento parado, mais chouriços: "ainda Salazar não era chefe do governo, ainda a 2ª guerra mundial não tinha começado".

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A viagem. O carro arranca: "este é o último aplauso...a Manoel de Oliveira (...) o carro que passa agora transporta Rui Moreira". "Cavaco Silva acompanhado, como habitualmente, pela mulher, por seguranças". a RTPinfo tem uma moto a seguir o carro fúnebre. pára tudo, a jornalista avisa: "Passos Coelho vai produzir uma declaração". O PM comenta: "ele queria fazer mais filmes, que é o que ele gostava de fazer". "Estamos com a moto RTP a acompanhar o trajeto fúnebre". "Moto RTP", "trajeto fúnebre". Flores fúnebres. Estrada fúnebre. Jornalista fúnebre. A moto RTP faz zoom para apanhar o caixão na janela lateral do carro fúnebre. O pivot anuncia que vai acabar a emissão. Que pena, não dá para ver o enterro no cemitério, está quase no sinal horário. Afinal não acaba, o pivot bem tentou... A jornalista contra-ataca: "esta tentativa de homenagear pela última vez o mestre da sétima arte". John Malkovich, perdido de tristeza, a câmara foca o momento. Alguém aproxima-se para tentar meter conversa mas ele diz não e afasta-se. A jornalista entedia-se com o ritmo do carro: "o cortejo assim o exige, este é um passo lento, para os admiradores poderem observar". 7ª vez que os jornalistas lembram: "nem Passos Coelho nem Cavaco Silva estarão no cemitério" - malvados, deixam a família fazer o luto em paz. Uma câmara filma todo o cortejo, várias motos com um operador de câmara no banco a apontar para o carro fúnebre. Um dos operadores faz "não" com o dedo da mão que não segura a câmara. Não está a apanhar o sinal, não pode emitir o caixão. Chega ao cemitério: "aqui está, com direito a salva de palmas".

O cemitério. Rui Moreira e Barreto Xavier apanhados lado a lado, a aplaudir à porta do cemitério. Um dos jornalistas do cemitério: "perguntei se [Malkovich] queria falar, ele disse que não, estava abalado". O outro diz onde está neste momento o ator. Hora do chouriço: "o cemitério de Agramonte foi-se enchendo de pessoas, de todos os estratos sociais". Atenção que "o corpo de Manoel de Oliveira já foi retirado do carro funerário, para serem feitas as formalidades finais". O jornalista aproveita: "peço desculpa, estamos em direto para a RTP1, vai-se despedir dum amigo...". A câmara encontrou John Malkovich, que tinha desparecido. Várias câmaras filmam diversos planos, as pessoas ali suponho que se sintam dignos figurantes da cena. Ainda não filmaram o jazigo. Aqui está. Uma câmara aponta para um teto e faz zoom out, descendo à terra. Apercebemo-nos que é o jazigo. Outra câmara filma a multidão, alguns têm o telemóvel no ar. Tiram fotos. Seguem-se os convidados do jornalista. Parece o tapete dos óscares. Apercebi-me que uma das câmaras está em permanência a filmar John Malkovich, aparece de 3 em 3 minutos. Rui Moreira está ao lado do polícia, apercebe-se que tem uma câmara apontada e começa a falar com o polícia. As entrevistas prosseguem: "estamos a falar dum panteão universal, não é?", "é". O jornalista está entediado: "estamos à espera do caixão". Chouriço time: ouvimos a história do cemitério. "Não é dos jazigos maiores. quando aqui chegámos algumas pessoas manifestaram-se surpresas pela pouca opulência", revela o jornalista. "Outro dos factos que aqui se festejam é a longevidade da vida de Manoel de Oliveira". A câmara filma os vidros dum jazigo. "John Malkovich é uma das figuras do cinema mundial. Naturalmente os olhares se concentram sobre ele" - palavras "John Malkovich" repetidas mais de 15 vezes (contei 15) pelo jornalista em 2 minutos. Chegou o caixão: "há uma forte salva de palmas de toda esta multidão". A meio da frase, outro jornalista diz só as palavras "John Malkovich!". Barreto Xavier não aplaude! A câmara faz zoom para dentro do jazigo, familiares põem a mão no caixão e a câmara foca o momento. Um jovem (neto?) ficou no jazigo sozinho a chorar. A câmara foca 10 segundos do momento.

A viúva e a vida continua. Barreto Xavier deposita uma rosa no jazigo. "Vem aí! Vem aí a viúva, pedem-nos que abramos caminho... A fragilidade da viúva, naturalmente". Há uma câmara a perseguir a viúva. A viúva diz qualquer coisa, o micro da câmara apanha, os jornalistas calam-se para tentar ouvir. O silêncio dura uns segundos, pela primeira vez na emissão. A viúva não consegue entrar no carro. A câmara agita-se. Tiveram de dar a volta ao carro, a câmara foi atrás. O neto colocou a avó no carro. Acaba o momento. Voltamos à imagem da multidão... e "John Malkovich está muuuuito perturbado" - o jornalista dá a entender tentou mais uma vez e levou com um comentário menos agradável. A câmara apanha alguém a dar uma gargalhada. A viúva vai no carro, a câmara filma a janela, a viúva acena, o carro escoltado por polícias que empurram as pessoas. Entretanto, uma conversa de fundo em francês, entre o jornalista e um novo convidado. Acabou o espetáculo da morte. Segue o after.

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publicado às 17:00