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Sobrevivência

por pedrop, em 20.02.15

O governo português só está interessado na sua própria sobrevivência. É isso, só isso, que o leva a se opor frontalmente ao caráter reivindicativo da atuação que os gregos agora têm na UE. Não creio na teoria do fundamentalismo, porque até acho que boa parte dos membros do governo, permanecendo embora de direita, já compreendeu perfeitamente o falhanço que foi "ir além da troika". Mas reconhecê-lo publicamente seria um suicídio. O caminho preferido seria, portanto, continuar a falar em rigor, ao mesmo tempo aliviando um pouco a austeridade, e obtendo da "Europa" margem para isso. É um pouco o que já aconteceu a propósito dos fatores externos (TC, BCE) que estão a contribuir para a economia - ao arrepio de toda a doutrina assumida pelo governo, que este mantém ao mesmo tempo que se apropria dos bons indicadores.

Esse instinto de sobrevivência também vale para os próprios líderes europeus. Jean-Claude Juncker diz que a Europa "pecou" e admite falhas na sua presidência do eurogrupo, mas trata-se de um Juncker recém empossado presidente da comissão, numa posição de tranquilidade para chegar à esquerda europeia e ganhar simpatia nos partidos da oposição nos estados. Os sinais que os governos desses estados estão a dar são, no entanto, muito diferentes - liderados pela Alemanha mas incluindo aqueles em que governam partidos social-democratas. 

O instinto de sobrevivência é tal que o governo português, ainda há escassas semanas repreendido por em ano de eleições descolar da linha mais ortodoxa, é agora o bom exemplo. As declarações mais papistas do que o papa de Passos Coelho e dos seus ministros compreendem-se dessa forma: está a acumular capital junto da Europa, da forma menos ética e mais oportunista possível. Duvido muito que não venha a ter um prémio por isso. Tudo se encaminha para uma intransigência europeia em relação às pretensões do governo grego, seguida de alguma flexibilização para Portugal (e a Grécia se capitular).

Na zona euro, parece continuar-se à espera que o governo grego faça o que é habitual em política - esbarrando contra uma parede, arranje uma maneira airosa de ceder em toda a linha, tentando convencer os eleitores dos ganhos que terá tido. Mas tal intransigência foi construída para funcionar contra moderados, habitualmente sempre à espera de diálogo. O Syriza não é o Pasok, e por isso não parece muito crível que vá ceder com a mesma facilidade. Se não há grande otimismo quanto a uma negociação a sério com a Grécia, e se não é provável que o governo grego faça o que é habitual, o que resta?

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publicado às 14:21