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Vida de privilégio

por pedrop, em 14.03.15

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Descobriu-se agora que há pessoas de esquerda que vivem bem, que tanto se enquadram numa elite intelectual, como beneficiam das vantagens sociais de estar no topo da economia atual. Foi Raquel Varela e agora Varoufakis. Tornou-se uma espécie de filão de contestação de alguma direita à consequência e à profundidade das convicções dessas pessoas. A verdade é que a esquerda tem uma relação difícil, não resolvida e até contraditória com o elitismo. A questão não nasceu hoje e está longe de resolvida. A esquerda surge duma interrogação acerca das pessoas comuns, colocando-as no centro da discussão política, materializando o feito extraordinário, tão revolucionário quanto magnífico, de questionar a desigualdade. Mas uma condição para isso é a existência de conhecimento, do intelecto, do debate permanente, dos meios materiais para permitir a própria existência dos pensadores, libertando-os do trabalho físico. A esquerda não nasce num vácuo, é uma resposta histórica à direita; nem é exógena, antes se constrói a partir dos sedimentos daquilo que procura substituir. A esquerda tem em si, pelo menos, uma parte do ADN da direita, por mais difícil que lhe seja reconhecê-lo.

Um exemplo é o caso de Raquel Varela. Soube-se que tem um estilo de vida de privilégio, é uma questão pessoal e está no seu direito. Espero que esta reflexão não seja vista como uma crítica: não estou a pedir um estilo de vida diferente a ninguém, e eu próprio gosto de muita coisa que me merece uma reflexão em vários aspetos (não deixo de comer carne, nem deixo de pensar na forma como os animais são mortos). Gerou-se um debate sobre a tensão com as suas convicções políticas que Varela não tem como resolver. Beneficia dos proveitos do capitalismo que critica e que potenciam o privilégio. A resposta dá aos que se aproveitam desse aspeto da vida pessoal (para, de forma falaciosa, pôr em causa tudo o que ela defende) é dizer que pretende que todos sejam privilegiados, o que é uma resposta não menos falaciosa. Não sendo materialmente possível todos terem tudo, a igualdade implica a diminuição dos privilégios, não a sua generalização - com uma melhoria geral de bem-estar, é certo -, mesmo que se considere que a performance das economias tem sido prejudicada pelas desigualdades. Ainda que o que hoje é privilégio, como comer fora ou vestir bem, se torne comum graças ao progresso tecnológico e igualitário, tal não impedirá que novos bens ou possibilidades surjam como privilégios - distribuídos por um sistema de mercado ou outro. E não nos esqueçamos dos defensores do elitismo que eu, pessoalmente, julgo que não defendem mais do que a versão laica da caridadezinha para os pobres e ignorantes que, na verdade, desprezam. De resto, a esquerda sempre teve uma discussão interna entre os hedonistas e os espartanos, entre a abundância utópica e o comedimento idealista, entre Fourier e Rakhmetov - o que coloca a questão de saber se a pessoa de esquerda busca a vida humilde ou a vida de prazer.

Assumamo-lo: há uma questão problemática, mas não é mortal. Pode parecer que não, mas quem se coloca numa situação mais mortífera do ponto de vista ideológico é a direita que se foca nestes hábitos de vida e de benefícios pessoais do capitalismo financeiro mundial, ainda que com o objetivo de pôr em causa as reivindicações de esquerda. Ao tratar os socialistas socialmente privilegiados como pessoas que desmereceram na prática as próprias ideias, ao criticar também os não privilegiados por se alimentarem literalmente do sistema que criticam (trabalhando numa fábrica, comendo alimentos produzidos por empresas privadas agrícolas, indo ao laboratório de análises particular, vestindo roupa da Primark, etc), essa direita admite de forma involuntária que há uma referência ética na igualdade. Mesmo que a considere inalcançável, assume tacitamente que essa ideia tem um valor acima desta nossa realidade. Enfim, procura dizer que a esquerda não é melhor porque se corrompe na prática - o que não é apenas uma contradição num quadro de ideias, mas a sua própria derrocada moral. Já tinha percebido que, tal como alguma esquerda professa o elitismo, há homens e mulheres de direita que, no fundo, têm um coração de esquerda. Julgo que esse paradoxo, sim, é um privilégio injustificado.

Nota: escrevo este texto com algumas dúvidas sobre ele, sobre o ângulo que aqui assumo. Gostaria que não fosse visto como algo definitivo, mas como umas impressões por limar. Sei que inquietará quase de certeza quem leia, também me inquieta a mim.

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publicado às 03:05