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Brexit

por pedrop, em 04.09.18

A saída do Reino Unido da União Europeia entristece, porque se perde um laço, uma ligação. Mas acontece, em boa parte, porque a UE está desmoralizada e porque seguiu um rumo, a partir do tratado de Maastricht, assente na exclusão, no egoísmo e na tecnocracia. A maior integração foi feita à custa da solidariedade. Não faz sentido culpar simplesmente os britânicos. Fazemo-lo em nome de quê? A resposta assenta numa situação hipotética: culpamo-los em nome, não daquilo que a UE hoje é, mas daquilo que juntos poderíamos fazer com que fosse. Portanto, não consegue justificar uma hostilização tão grande. É um peso que os europeus têm de carregar também como responsabilidade própria. O problema é que nem o Brexit tem servido para uma mudança que se exige desde o fracasso da austeridade imposta à Grécia no início da década. Os que, desde o início, identificaram corretamente os problemas continuam sendo ignorados ou, pior, atirados de forma demagógica para o mesmo saco da extrema-direita.

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publicado às 15:20

Sobre a especulação

por pedrop, em 25.08.18

O caso Robles, que motivou tantas críticas, é uma boa oportunidade para discutir a especulação. Pessoas de direita reagiram de forma tão brutal ao caso Robles que deixaram transparecer o sentimento de que há algo errado na especulação, de forma involuntária, num ataque que não se explica apenas por aversão ao que seria uma pequena hipocrisia - um político crítico da especulação apanhado a fazer especulação. Mas é um ataque pessoal, quando a questão fundamental é política e social; e inconsequente, porque não visa lidar com o problema, mas apenas atacar o adversário.

Há proprietários que evitam a especulação, que vão moderando a avidez que todos temos e que, por isso, merecem ser elogiados, mas não são assim tantos. É uma questão de estímulo: os agentes num dado mercado atuam de acordo com o que está no mercado, maximizando o seu bem-estar. Quando o dinheiro que é dado por um bem que possuímos é muito, aumentamos o preço pelo qual o vendemos - sejam diamantes, imóveis ou até água -, e isto é assim mesmo que as consequências gerais sejam catastróficas. Trata-se de um comportamento expectável no mercado, ao qual se colocam muitas dificuldades em termos de censura pessoal, a não ser que se considere imoral um indivíduo participar nos mercados, reagindo de acordo com os estímulos que lhe são dados, embora o comportamento oposto possa e deva ser elogiado como virtude de quem não é como os outros, de quem é benevolente e contém o seu egoísmo. 

Este comportamento normal no mercado, de racionalidade estratégica individual, pode, no entanto, assentar numa situação anormal do próprio mercado - o que ocorre nos fenómenos especulativos da habitação, em que a dificuldade de acesso a um bem essencial escala a caminho da impossibilidade económica, gerando um problema que não é individual, mas sim social: o rentismo, a expulsão das pessoas e a gentrificação. Nestas questões sociais, já não está em causa a ética do comportamento individual, mas sim uma dimensão diferente da moral, a justiça - sendo que o agente racional em causa é público, através da intervenção do Estado e do direito. Se todos, incluindo a direita, pressentimos que há um problema nas consequências da especulação, e se esse problema existe verdadeiramente com uma escalada de preços e uma exclusão cada vez maior das pessoas com rendimentos normais do acesso à habitação, de forma empiricamente demonstrada, é dum problema de injustiça social que estamos a falar. 

Ora, o liberalismo económico parte de uma determinada perspetiva que não dá resposta a estes problemas, porque entende que a intervenção do Estado é ilegítima e que a propriedade privada é um direito fundamental irrestrito. Além disso, o liberalismo económico sustenta a compatibilidade de tal conceção com a ideia do liberalismo político (de padrões mínimos de vida e de respeito para com todos os indivíduos) e do próprio bem-estar geral através de uma presunção de que todos podem aceder aos bens essenciais com um esforço razoável, porque estes bens não são escassos e, logo, são baratos. É uma afirmação de facto duma situação contingente que fundamenta esta compatibilidade valorativa, uma compatibilidade que, afinal, é precária. Não se oferece qualquer resposta a uma situação em que assim não seja, em que bens essenciais se tornem gravemente escassos dentro do seu mercado.

Isso ajuda a explicar o falhanço de determinadas privatizações, que geraram grandes empresas privadas de caráter rentista que, em vez da descida de preços prometida, promoveram a escalada desses preços, prejudicando a esmagadora maioria da população e mesmo os outros setores da economia - sendo que dificilmente se pode censurar alguém que, legalmente, se limite a comprar ações destas empresas para obter um dividendo. Nas premissas estritas de boa parte da direita contemporânea, nada de errado se pode apontar no funcionamento dessas empresas, assim como nada de errado se poderia apontar a uma situação em que a maioria da população ficasse sem abrigo por um fenómeno especulativo que promovesse uma inflação brutal do preço da maioria da habitação. Daí que essa direita não consiga sustentar as suas premissas em tais situações e acabe por se afastar delas em situações de crise, muitas vezes de forma não assumida. 

Quando a especulação generalizada no mercado acontece, por muito que se pressinta que algo está errado, não é possível encontrar resposta para o problema partindo dos quadros de pensamento e respeitando as políticas da direita liberal. Resta a crítica inconsequente a um bode expiatório, ou a superação desses quadros de pensamento e dessa política. Exige-se uma racionalidade pública, que assuma a existência de uma situação social injusta porque não cumpre os padrões mínimos do liberalismo político, numa reflexão que é de justiça, que não se debruça sobre a moralidade do comportamento individual dos agentes no mercado, mas sim sobre o comportamento dos cidadãos e dos políticos. A legitimidade da intervenção social é inequívoca, porque se trata de um problema social que afeta negativamente os indivíduos, em especial os de menores rendimentos, no âmbito de uma instituição social que é o mercado, dentro de uma sociedade que é política e que se autogoverna. 

Do que se trata, então, é de encontrar respostas no âmbito da política para resolver o problema da especulação, restabelecendo as cidades como espaços democráticos de convivência entre todas as classes sociais sem estraficação e, sobretudo, uma situação apta a que a generalidade das pessoas consiga ter acesso à habitação, um bem essencial à subsistência humana - quer através da provisão pública, quer através do ressurgimento dos mercados ligados à habitação, o que se traduz economicamente na normalização da oferta e da procura e na estabilização do crescimento de preços. Fazê-lo implica uma intervenção regulatória que retire estímulos especulativos, o que passa pela restrição de usos não habitacionais pelos proprietários, como o simples desuso do imóvel ou o uso para fins turísticos, bem como a eliminação de incentivos fiscais e administrativos à especulação, como a cláusula de compra de imóveis dos vistos gold e do estatuto de residentes de longa duração, ou ainda a criação de incentivos fiscais e regulatórios, quer à venda para habitação e ao arrendamento, quer à construção de novo edificado nas zonas sob maior pressão. Tudo isso é intervenção legítima do Estado, que regula a atividade privada, sem destruir o direito de propriedade ou o lucro, mas que os restringe legitimamente e os contém em patamares não especulativos que beneficiem diretamente a generalidade da sociedade e dos cidadãos.

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publicado às 00:51

O que fazer para conter a extrema-direita?

por pedrop, em 15.08.18

Se a questão não é tanto as fake news, mas sim a ascensão da extrema-direita, importa discutir o que fazer para a contrariar, porque é um dos maiores perigos que enfrentamos. O que abaixo defendo poderia ser sistematizado desta forma: (1) prevenir e suprir as condições que permitem a ascensão da extrema-direita, nomeadamente na educação, na política económica e na participação política; (2) nunca aceitar a extrema-direita como normal, combatê-la e isolá-la como perigo existencial que é, não tolerar ameaças, denunciar sempre manifestações diretas de ódio, reprimindo-as, mas (3) estabelecer condições de desradicalização das pessoas que manifestem essas ideias no presente, para (4) permitir o diálogo efetivo, colocando as pessoas que são alvo da extrema-direita numa posição privilegiada desse diálogo.

 

Acredito que a primeira e mais importante estratégia é a montante, esvaziando as causas para a sua ascensão, que são causas objetivas de insatisfação - nomeadamente, os problemas na economia e na política económica, fiscal e financeira que se traduzem em maior desigualdade e estagnação de rendimentos, e os problemas de desempoderamento dos cidadãos nas decisões políticas. Escrevi um pouco sobre isso há uns tempos, aqui. Com isto não se deve confundir um certo apelo que tem havido a que os partidos do sistema adotem, eles próprios, programas mais próximos da extrema-direita, como medidas agressivas de imigração, construção de muros impenetráveis, deixar que adultos e crianças perdidos no mediterrâneo morram afogados, retirar cidadania a quem cometa crimes se fizer parte duma dada minoria. Prosseguir tal política significaria que, afinal, não haveria sequer fundamento para conter a extrema-direita, porque as suas ideias não seriam tão nefastas quanto isso.

O que está em causa são problemas anteriores à canalização contra as minorias da insatisfação existente - problemas que alguma direita, algum centrismo e algum europeísmo não pretendem resolver. Acrescentaria um outro problema que é o desconhecimento. Raramente se encontrará nos programas de educação nos países ocidentais o ensino de línguas como o árabe, o russo, o turco, ou os dialetos de minorias internas, bem como um diálogo sobre as culturas respetivas. Nem sequer se encontra, em países com parte da população negra, o estudo da escravatura e do seu impacto social e económico até hoje, embora sejam dados alguns passos, nos últimos tempos, para a abordagem de questões de igualdade da mulher e de inclusão dos LGBTQ. Nas ruas, é raro encontrar topografia com referências aos fracos e às minorias, ou restaurantes que representem a gastronomia das culturas minoritárias internas, embora também isto venha mudando aos poucos. O desconhecimento do outro é algo que potencia o medo e a exclusão desse outro. 

Além disso, no combate à extrema-direita que já existe e que está por aí, no plano do debate e da participação política, discute-se o que fazer perante alguém que manifeste ideias de ódio ou que seja proponente de ideias de extrema-direita. Há quem defenda a agressão física direta, ou apenas a exclusão da sua participação política, ou ainda a sua participação, mas apenas em debates e em entrevistas, ou até a presença de representantes da extrema-direita em conferências como conferencistas, em nome da liberdade de expressão. O que me parece essencial é o ponto de partida de que essas ideias não são normais nem aceitáveis, mas isso não significa desistir das pessoas. A expressão de pensamento tem limites legais, e é costume a própria constituição de organizações fascistas ser proibida. Por outro lado, denunciar a extrema-direita e combater as suas ideias implica conhecê-la, o que não implica chamá-la para debates - como se defender que os negros são menos pessoas fosse uma simples proposta que se possa fazer e que a audiência aceita ou não num debate, como um "prato normal" no "menu". Quem diz isto normalmente não se sente afetado, por ser branco. E também não são a mesma coisa um manifestante que sai à rua com uma bandeira nazi gritando "morte aos ciganos" e uma pessoa com ideias reacionárias e machistas que escreve textos num certo semanário e que sai à rua para comprar pão sem ameaçar ninguém.

Existem nuances que, muitas vezes, são ignoradas nestes debates sobre a extrema-direita. Além de existirem diversos tipos de pessoas de extrema-direita e diversos graus nas posições que assumem, também existem diversos tipos de tolerância - posso tolerar de forma passiva, sem que isso implique tolerância ativa, isto é, posso permitir que alguém tenha as suas ideias racistas no seu canto, mas recusar dar-lhe palco por não considerar que merece debater comigo. E posso simplesmente não tolerar quem pretende, abertamente, eliminar a própria norma de tolerância, desde que o consiga demonstrar, objetivamente, sendo necessário distinguir entre "the intolerance of those who lie beyond the limits of toleration because they deny toleration as a norm in the first place, and the lack of tolerance of those who do not want to tolerate a denial of the norm" - Rainer Forst, Toleration (vale a pena ler). Além disso, o racismo, o preconceito e o ódio não são mera intolerância: "The racist, therefore, can neither exemplify the virtue of tolerance nor should he be asked to be tolerant; what is necessary is that he overcome his racist beliefs" - idem. Ou seja, se alguém professa ideias racistas, o problema não é a sua intolerância, mas o próprio racismo. Portanto, quando decidimos tolerar, ou não tolerar, essa posição racista não estamos perante o problema de tolerar, ou não tolerar, um ato de intolerância, mas sim um ato de racismo, dispensando a questão de saber se tal ato de racismo traduz a negação da norma de tolerância - não se cai em nenhum paradoxo. 

A meu ver, a mais importante das nuances é que o ser humano não está condenado a ser o que é, é sujeito de mudança. Por isso, sem nunca aceitar as ideias da extrema-direita, é preciso criar condições que permitam a "desradicalização" de quem está na extrema-direita, da mesma maneira que se faz isso, por exemplo, com extremistas religiosos. O próprio estado tem um papel a desempenhar na criação de programas específicos para isso. Existe uma citação significativa de Nelson Mandela: "If you want to make peace with your enemy, you have to work with your enemy. Then he becomes your partner". É evidente que esta máxima carrega consigo três pressupostos: um dos sujeitos tem de ser membro da minoria de que o outro é inimigo; e este outro sujeito, o inimigo, tem de estar disponível para dialogar, ou tornar-se disponível para isso; além disso, o primeiro sujeito tem de estar na mesma condição que o outro, isto é, na mesma posição relativa. O problema é que quem defende ouvir as pessoas de extrema-direita muitas vezes esquece estes três pressupostos.

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publicado às 23:40

Fake News

por pedrop, em 15.08.18

Quando se fala em "fake news" da extrema-direita, há a ideia de que alguém engana as pessoas, que estas pessoas acreditam no que leem e que, em consequência, se encaminham para a ideologia pretendida. A estratégia assente no encerramento de contas nas redes sociais, na criação de "fact checking" e na denúncia de "fake news" parte dessa ideia. Só que as coisas não me parecem ser tão simples. Em muitos casos, o recetor da "fake news" não é apenas um crédulo enganado, mas alguém que se deixa enganar, que tem gosto em ser engando, e que reproduz o discurso enganado mesmo quando confrontado com a evidência de que é falso, tornando-se cúmplice.

Todos temos resistência em admitir que a nossa primeira impressão de algo está errada, sobretudo quando a revelação não é feita por nós e sim por outra pessoa, em confronto. Faz parte das condicionantes psicológicas do que é um ser humano. Mas a partilha de "fake news" envolve algo mais: a pessoa partilha uma notícia falsa, que é bastante provável logo na primeira leitura que seja falsa, mas que não resiste a partilhar. No fundo, a pessoa quer que aquilo seja verdade, mesmo que não seja.

E quando a notícia é refutada racionalmente? A pessoa poderia travar o seu desejo, se tivesse um compromisso com a razão, mas o que vemos é que fica imune, não altera nada. Procura escapar ao facto de ter sido refutada por recurso à ofensa contra o interlocutor, a todo o tipo de falácias ou a outras notícias falsas que encontre para partilhar - tudo para não reconhecer o erro. De resto, é algo que se entrelaça com a corrente política em causa, que pretende, justamente, contrariar o que está estabelecido, o sistema, não através de um novo exercício racional que critique o que é injusto ou o que é mau no sistema, mas na afirmação do irracional, do íntimo de revolta, de preconceito e de ódio - procurando, não debater e lidar com eles, mas justificá-los, tal como nos surgem, com quaisquer pretextos que driblem qualquer objeção, afirmando tais sentimentos como legítimos. 

É uma corrente que advoga uma involução ou uma animalização da política e do próprio ser humano, recusando o auto-questionamento. A dúvida passa a ser um problema. O que se impõe é que tenhamos certezas - e certezas imediatas, que não são estabelecidas através da reflexão, mas da impressão sem mais, sem que essa impressão possa ser objeto de qualquer dúvida posterior ou reavaliação. O argumento racional de nada vale.

Uma consequência natural é a completa fragilidade da teoria de sociedade ou do ideal de sociedade desta corrente. Não vai muito além de jargões de conteúdo negativo: não haver terrorismo, não perverter a nossa cultura. Quando se questiona pelos direitos e deveres que cada cidadão deve ter, sobre o que é justo, pela dignidade da pessoa humana, a certeza esvai-se em contradições. Interessa notar que é uma fragilidade ainda maior do que a dos fanáticos islâmicos, por exemplo. Porque a vergonha do nazismo e do fascismo continua a por-lhe freio, ainda que esse freio seja cada vez mais frágil. 

Paralelamente, os que a tentam normalizar fazem-no numa formulação indireta, tentando equiparar, de forma falaciosa, ao comunismo. No fundo, tentam dizer aos que atacam esta extrema-direita que, se aceitam ideias comunistas e igualitaristas radicais no debate, também deveriam aceitar a defesa irracional do ódio e da desigualidade radical.

De qualquer forma, a questão não é tanto sobre as fake news, mas fundamentalmente sobre a extrema-direita. 

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publicado às 18:41

Combater a extrema-direita

por pedrop, em 23.07.18

Gerou-se uma bibliografia sobre a ascensão da extrema-direita pelo mundo, e a maior parte dela é inóqua e irrelevante. Pensei muita coisa nos últimos anos sobre isso, não raro de forma contraditória. A ideia que tenho hoje é que a questão fundamental não é o "populismo", nem é o "fake news" - nem a solução, se quisermos manter a democracia, pode ser baseada apenas em ameaçar ou ensinar as pessoas a votar. Quem faz assentar toda a estratégia nessa perspetiva, que é uma perspetiva a jusante, pretende, na verdade, manter  a inércia sobre um determinado estado de coisas, a montante, que é insatisfatório e sufocante, que se apresenta como não tendo alternativas. Existe um jogo de invisibilidade, em que um poder tornado invisível, pretensamente não escrutinável e inamovível eleitoralmente, impõe opções políticas pretensamente irrevogáveis e cujo caráter político é, ele próprio, tornado invisível. O seu próprio nome é difícil de identificar, mas está ligado a palavras como "globalização", que emergiu há duas décadas, e as mais recentes "austeridade" e "reformas estruturais", bem como a uma certa conceção de "responsabilidade", de "meritocracia", de "realidade" ou de "inevitabilidade" face a mudanças que afetam negativamente a qualidade de vida e a autodeterminação das pessoas, embora se proclame o seu oposto.

Existe, portanto, um autoritarismo invisível que, desafiado pelo dito "populismo", se torna sucessivamente mais visível para o combater, através da formalização do condicionamento dos meios pelos quais a insatisfação se manifesta. É uma lógica repressiva que, para manter o estado de coisas, faz cair a máscara de invisibilidade do poder que o sustenta. Exemplo disso é a proposta de repetição de eleições e referendos quando as pessoas votam mal, caminho pelo qual eu também enveredei, a propósito das eleições americanas de 2016, mas que recuso continuar a fazer e que se tem feito intensamente em relação ao Brexit. 

Pelo contrário, o essencial da solução que vislumbro é dar mais poder às pessoas comuns, fazê-las cada vez mais donas do seu destino, aumentar a sua autodeterminação em concreto. É preciso responder, a montante, contrariando o aprisionamento político e pessoal. Isso só é possível através de políticas de igualdade e políticas sociais que visem especificamente garantir que cada pessoa tenha um espaço de decisão, de atuação, e de poder de compra que corresponda ao espaço crescente de opinião e de associação de indivíduos que ocorre com a internet e com as redes sociais. Não tenho pretensão de propor um programa de governo popular, mas posso exemplificar preocupações concretas que deveriam ser levadas em conta: aumento progressivo de rendimentos, criação de oportunidades de desenvolvimento pessoal e social, acesso ao conhecimento, expansão do debate e dos mecanismos democráticos de decisão participativa e direta, supressão das maiores desigualdades económicas, sociais e políticas (ricos cada vez menos ricos, políticos cada vez menos poderosos). Algo que desanuviou significativamente a situação no caso português foi a recuperação de rendimentos promovida nos últimos anos. É insuficiente, mas demonstrou a sua utilidade.

Quem se preocupa com a extrema-direita o que tem de fazer é procurar reformas e políticas fundamentalmente diferentes das que existem, direcionadas especificamente para diminuir o desamparo dos cidadãos comuns e para recuperar a sua autonomia e o seu autogoverno. Não basta defender o que está duma forma cada vez mais repressiva e agressiva, é preciso perceber que o que está não é bom, que é injusto, que aprisiona de uma forma subtil e que, dessa forma, promove a insatisfação, sendo certo que tal insatisfação é transfigurada numa reação ainda mais injusta.  Evidentemente, tal preocupação com a recuperação do estatuto social do cidadão comum e do povo traduz uma orientação política muito diferente da de muitos que pretendem ser os protagonistas do combate que temos de fazer. Por isso, é preciso que os protagonistas políticos atuais mudem as suas ambições - ou que se mude rapidamente de protagonistas.

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publicado às 02:29

Eu sou Lula

por pedrop, em 12.04.18

 Acredito na inocência de Lula. E hoje acredito com a emoção de ter passado o último fim de semana quase em claro até à sua prisão – o simbolismo do sindicato, o povo reunido para o defender, o discurso histórico (que adversários tacanhos tentam reduzir falaciosamente a uma frase corriqueira, das tantas que Lula tem), a decisão de se entregar a uma pena injusta de um poder arbitrário, quando poderia ir para o exílio ou esconder-se no Brasil profundo. Vi a História ser feita e percebi finalmente o que é o lulismo, que só se percebe quando se tem emoção. Ao ver a grandeza de um homem que se entrega à injustiça, tive um profundo orgulho de estar deste lado e não do outro. Chorei tanto, tanto pela injustiça como por admiração.

Nem sempre foi assim. Fui entusiasta da reeleição da Dilma, mas, quando surgiram as acusações genéricas contra Lula, distanciei-me, julguei que fossem sérias – leviandade de que hoje me arrependo e que tento reparar a cada dia. Depois fui ler em que consistiam essas acusações, e levei uma surpresa, porque não passavam no crivo dum juízo de mínima seriedade. Foi num exercício crítico que a minha posição se alterou, em contrassenso ao meu próprio preconceito. Foi uma posição assente na razão. Por isso, não admito que nenhum comentador político português diga que a minha posição e a de tantos outros é de seguidismo, ou de emoção sem razão. Talvez devesse abster-me de comentar um texto tão falacioso e vácuo. Talvez merecesse o silêncio, mas enfim.

Sei bem por que o faz: ataca Lula só para atacar José Sócrates, o que, de resto, revela ao final do texto, como se um fosse o outro. É uma estratégia que certa direita portuguesa tem tido nos últimos tempos. De pouco importa o que esteja em causa no caso Lula, importa atacar ao máximo, porque aqui, deste lado do Atlântico, há o caso Sócrates para ser julgado. Como as coisas podem cair na mistura, mistura-se imediatamente e o Lula é nada mais do que um “corrupto”. É uma coisa ao género da inquisição. Eu, que estou há dois anos nisto, não consigo conter um sorriso quando, interrogados sobre as provas e os crimes de Lula, desesperam em busca delas, acabando por erguer uma notícia do Estadão ou da Globo – como se desses dois fosse de esperar outra coisa que não a tentativa de justificar a sua própria perseguição a Lula, de onde partiram processos, sendo peças da Globo apresentadas como “prova”, e de onde a “jurisprudência” Moro foi sendo estimulada mediaticamente, para hoje ocupar boa parte da magistratura.

Lula é mais do que alguém acusado de corrupção. É um dos maiores líderes políticos vivos no planeta. É o líder da oposição a um golpe que depôs Dilma, a presidenta eleita. É o candidato que vai na frente em todas as pesquisas de opinião, porque defende os pobres e a reversão das políticas implementadas no golpe, perante uma elite que não o aceita, e de onde saem juízes que o perseguem estimulados por uma imprensa dominada por essa mesma elite. Porque, se Lula é mais do que estes processos, o Brasil é mais do que um país onde há tribunais que julgam na abstração do Direito. É um país que vive num apartheid social, cuja elite só não se rebelou contra Lula antes porque o crescimento económico histórico dos “anos do PT” aplacou o ódio social. Digo isto como brasileiro que também sou. É um país que vive uma crise constitucional. E os tribunais fazem política. Muitos estranharão a hipótese de haver uma atuação deliberada e política da imprensa e de boa parte da magistratura, agindo por má-fé e movidos por uma orientação ultraconservadora. Não é uma teoria da conspiração, nem um populismo. O fenómeno não envolve necessariamente uma concertação deliberada. É o que acontece num país em crise constitucional, ainda por cima quando se trata de uma sociedade de profunda segmentação social. Os poderes constitucionais misturam-se. O Direito é usado como uma folha de papel, vendo nele o que não está lá. Existe uma profunda atuação de classe. Aconteceu na África do Sul do apartheid. Acontece no Brasil do apartheid social.

A cinco meses das eleições, Lula é preso num processo de exceção, recheado de abusos, de atropelos formais, e ao qual falta qualquer substância incriminatória. Mesmo sem nada terem encontrado contra Lula, continuaram, porque o desfecho estava estabelecido antes de qualquer julgamento. Ao contrário de Lula, tudo se encontrou sobre outros, mas é ele que figura na representação social da elite brasileira como o chefe do “mecanismo”. Porque Lula é tão forte que tem de ser abatido através da humilhação. Só que, como alguém disse, com um curso de torneiro-mecânico ele sozinho tem em inteligência o que a elite tem em poder. E não se deixou humilhar, nem mesmo no momento da prisão. Ao contrário do que alguns assumem, ao dizer que é agora uma ideia, Lula não adotou uma posição majestática, mas o oposto. Em entrevista para o livro A verdade vencerá, dizia que o seu próprio sucesso é um produto coletivo, mais do que individual: "Tudo foi construção coletiva; nada teria sido possível por mérito individual. Sempre tive comigo milhares  e milhares de companheiros que acreditaram; então, é pra essa gente que eu trabalho. Não é pro Moro que eu digo que sou honesto, é pra essa gente, a quem devo o que eu fui e o que sou".

Para mim, e para tantos outros e tantas outras, é o momento da resistência. É o momento de denunciar o que aconteceu, de defender Lula, por muito que nos ataquem. É o momento da organização de movimentos pela sua libertação, aliada à construção duma ideia otimista para o futuro do Brasil, um futuro após estes tempos de desigualdade exacerbada que ameaça descambar para o fascismo. Decidiram prendê-lo e querem calar-nos. Acabaram por gerar um mito e produzir a união de todos os que se revoltam perante a injustiça. Com razão e com paixão, a resistência só agora começou.

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publicado às 09:42

Brasil transfigurado

por pedrop, em 24.03.18

Os que protestaram contra Lula no Rio Grande do Sul são apoiantes de Bolsonaro e ruralistas. Compraram espaços em outdoors, mas não fizeram discursos, optaram por bonecos de Lula como presidiário, e adotaram o método das manifestações violentas, agredindo apoiantes e tentando travar a caravana com armas de fogo. O governo do estado, de direita, recusou reforçar a segurança e a caravana acabou encurtada no último dia, contrariando as garantias de que continuaria inalterada. Para derrubar a esquerda, os líderes da direita laica e liberal estimularam e financiaram grupos extremistas, como o MBL ou o site “O Antagonista”. Os protestos de 2013, que começaram por ter reivindicações progressistas, acabaram sequestrados por uma agenda oposta, um pouco à semelhança do que aconteceu com a primavera árabe, num processo que desembocou numa crise política e económica, no derrube de Dilma, num governo Temer que aplica um programa oposto ao sufragado nas urnas em 2014, e na degeneração do combate à corrupção numa atuação judicial partidarizada.  

Não é por acaso que os opositores de Lula usam como símbolo um boneco do ex-presidente vestido como presidiário, um pixuleco. A imagem é muito mais importante do que parece, porque representa a confluência de dois importantes movimentos. Por um lado, está em curso a transfiguração da direita brasileira, por outro uma boa parte da magistratura atua politicamente, o que significa que há uma rutura institucional e uma crise constitucional. A cumplicidade tática da direita liberal (herdeira e órfã de Fernando Henrique Cardoso, no PSDB, mas também no DEM) com a direita fascista acabou por alterar a sua própria natureza. Líderes políticos dos partidos da direita moderada são cúmplices com as táticas do MBL, com assassinatos policiais ou com manifestantes violentos. Alguns, como o prefeito de São Paulo, João Dória, até adotam o discurso da direita fascista. Muitos dos cidadãos alinhados à direita, que defendiam o pluralismo, hoje pretendem silenciar os adversários ou prendê-los. Muitos dos que, mesmo discordando, até aceitavam Lula hoje odeiam-no, não porque ele tenha mudado, mas porque mudaram eles. É preciso entender este fenómeno de radicalização e como aconteceu. É um processo muitas vezes involuntário da parte de quem se radicaliza, mas meticulosamente planeado por quem instiga. Se, em parte, o movimento saiu do controlo dos seus próprios criadores, existe uma atuação concertada e consciente da maior parte da imprensa na manutenção de um clima de ódio contra a esquerda.

Parece bizarro, quem ouve falar nisto de fora não acredita. Torna-se surpreendente e, sobretudo, chocante para quem resolva prestar atenção. Há dois bons exemplos: o relato do processo de impeachment de Dilma, sem qualquer crime de responsabilidade, dando a entender constantemente ao cidadão o oposto; e o relato do processo Lula, procurando desesperadamente transparecer a normalidade duma acusação sem provas nem imputação de conduta criminosa, e de condenações com fundamentações bizarras e contorcionistas. Entender porque é que a imprensa brasileira atua desta forma exige contextualização. Exige observar o elevado grau de concentração dum universo televisivo e escrito aparentemente muito diversificado – é, na verdade, uma mão cheia de grandes conglomerados. E exige reconhecer a vulgaridade histórica dessa atuação. A imprensa brasileira apoiou um golpe de estado em 1964 e celebrou uma condenação do ex-presidente Juscelino Kubistschek pela ditadura. Desde então, foram décadas de atuação concertada contra a esquerda, culminando em notícias tão bizarras contra Lula como é agora o caso do “triplex” – veja-se o “carro do Lula” (no youtube é possível encontrar reportagens da altura), a manipulação, pela TV Globo, do resumo do último debate presidencial entre Lula e Collor, em 1989, ou o caso Proconsult, em 1982, ponto mais quente da guerra entre as organizações Globo e outro líder da esquerda brasileira, Leonel Brizola. O Brasil vive uma longa batalha entre a esquerda e a comunicação social dominante que Lula, como presidente, cometeu o erro de tentar ultrapassar ignorando o passado.

O momento que o Brasil vive tem a influência determinante de fatores culturais e sociais. O que também possibilita uma atuação de classe tão forte e escancarada da parte de empresários, políticos, jornalistas e magistrados é haver um Brasil profundamente dividido e sofrido. Gosto de dizer que alguma direita portuguesa gostaria de ser como a brasileira, mas não consegue. O Brasil ainda não se recuperou da colonização. De certa forma, continua colonizado, sem ter um colonizador e, muitas vezes, sem sequer se aperceber de que é ainda um país colonizado. O Brasil saiu do império português, mas Portugal continuou dentro do Brasil, no bom e no mau. Existe um apartheid social, retratado no “ódio ao pobre”, tão frequente, tão assumido como normal no contexto familiar e de amizade pelas elites e pela classe média, mas ao mesmo tempo tão escondido e ignorado no discurso público, como se não influenciasse as decisões políticas, ou como se se reconhecesse que é errado. A célebre figura do “Caco Antibes” não é tão caricatural como a sua raridade faz crer. É um dos raros momentos em que é dito publicamente o que acontece no dia a dia. O apartheid social brasileiro tem cor, a cor negra da escravatura, e tem a força da ignorância, porque é promovido através do engano e da exploração a um nível só possível quando o sistema de educação pública funciona tão mal.

O brasileiro de elite que odeia o pobre vem para a Europa e fica maravilhado com o resultado de políticas opostas às que ele defende, porque o europeu é branco e a política já foi implementada. Volta ao Brasil e vê que algo está errado, mas não consegue libertar-se do sentimento que o impele a atacar o sintoma em vez da doença. Culpa o povo, quando deveria culpar a política e a imprensa que tem. Os jogadores que provocaram esta radicalização sabiam perfeitamente que teclas tocar. O problema é que a maioria da população que resulta desta colonização e que é tão explorada aprendeu a votar. Não vota nos vários bonecos que lhe são apresentados, todos dizendo mais ou menos o mesmo em linguagens diferentes, com amplo espaço na imprensa e na TV. O ódio é politizado e canalisado contra aqueles que possam ser votados por esse povo – intensamente, todos os dias, contra qualquer um que apareça. Lula é o mais forte deles, forte como poucos no Brasil e em qualquer lugar. Foi ele, não Brizola, quem rompeu o destino inevitável do Brasil. Vencerá novamente e, por isso, é o inimigo.

Tudo isto tem impacto nas magistraturas, como não poderia deixar de ter. Neste contexto, compreende-se que exista uma corrente fortemente politizada entre magistrados, com uma orientação de direita, que se aproxima da extrema direita, que atua de forma partidária e com uma elevada consciência de classe, instrumentalizando, no momento atual, até os mecanismos da justiça penal para dar respaldo ao seu grupo político, que lhe implora que prenda o adversário. E implora diretamente, com jornalistas que falam abertamente na necessidade de Lula não poder ser candidato. Esta fusão entre a política e a justiça é bem ilustrada pelo “pixuleco” em que Lula é reduzido a inimigo a eliminar do combate político através do encarceramento numa prisão. O slogan político é substituído por um pedido de condenação. A urna de voto é substituída por uma sentença. O eleitor pobre é substituído por um juiz que vem das elites. A última coisa que está em causa é o “direito penal do facto”, célebre máxima do liberalismo político nos temas criminais. É o direito penal do inimigo, que traduz um sistema institucional moderno, à francesa, e democrático ser implodido diante dos olhos dos brasileiros e das brasileiras.

O Brasil lutou para ser uma sociedade diferente daquilo a que estava condenado. Lutou com “alegria e progresso”, em vez de “ordem e progresso”. Até elegeu uma mulher presidenta. Vive o ocaso da mudança e uma tentativa de regresso ao cumprimento da pena a que estava condenado. O mesmo é dizer que vive uma crise constitucional. As instituições fingem atuar numa normalidade formal, enquanto atuam substancialmente com total descaso pela constituição. A sociedade está em desagregação. Cada dia, há uma notícia mais monstruosa – o fim dos direitos laborais, a venda a retalho das riquezas naturais, a educação que agora vai ser à distância, a morte de opositores, a investigação criminal contra conteúdos curriculares em universidades que desagradam a magistrados conservadores, a proibição de exposições em galerias de arte. Já quase nada surpreende. O povo foi levado às ruas com intenso estímulo da grande imprensa por uma causa enganosa, um impeachment que tudo resolveria – e que tudo resolveu apenas para os 3% de brasileiros que dele beneficiam agora, contra o resto do país. Foi um engodo. Hoje, os manifestantes de 2016 merecem o epíteto de "manifestoches", celebrizado no cortejo carnavalesco da escola de samba Tuiuti (cujo enredo partilho abaixo). Agora o povo manifesta-se apenas nas intenções de voto, fazendo ressuscitar o Partido dos Trabalhadores, elevado ao estatuto de partido com mais simpatizantes, e dizendo que vota em Lula, enquanto a grande imprensa se esforça em táticas de desmobilização de qualquer potencial movimento de protesto nas ruas e exige a prisão do próprio Lula.

Isso é que é surpreendente: não conseguiram matar a esperança.

 

 

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publicado às 17:47

Entre o socialismo e a social-democracia

por pedrop, em 23.02.18

Escrevo a propósito do congresso do PSD, dos problemas colocados na definição de “social-democracia” e do debate de ideias que começa a surgir dentro da chamada geringonça sobre o que fazer daqui em diante, e sobre os pressupostos filosóficos dos quais se deve partir. Coloco-me entre os que defendem uma economia mista, o que não é uma posição tão fácil como poderia parecer do ponto de vista teórico, nem representa o status quo existente, dado que o setor público da economia se apresenta hoje, em Portugal como em muitos outros países, esvaziado e subdimensionado, fruto de privatizações e liberalizações que os defensores da economia mista permitiram e não reverteram. O PS, apesar do seu realinhamento à esquerda, não propõe inverter este novo estado de coisas.

O reformismo da esquerda é diferente do reformismo da direita. Não se pretende privatizar, flexibilizar, liberalizar – embora o objetivo de eficiência económica também possa estar presente, com soluções que são diferentes. As reformas de esquerda são anteriores e prosseguem uma organização económica e social que se pretende mais equitativa do que a que assenta no mercado. O reformismo aparece como alternativa aos males da revolução, alternativa que parte da construção de três edifícios fundamentais – direito do trabalho, estado social, setor público da economia.

A dada altura, o objetivo comum socialista esbate-se num momento transitório cada vez maior. Fica em questão o próprio objetivo, se é ainda a superação do capitalismo, ou se é a correção dos seus males, numa coexistência e confluência de racionalidades socialista e capitalista na mesma realidade, um equilíbrio virtuoso do melhor dos dois mundos. Por fim, são postas em causa as próprias reformas, revertidas numa terceira via que se confunde com um liberalismo assistencialista – a esquerda não será mais do que uma sensibilidade social.

Um dos problemas que se colocam a esta esquerda reformista ainda é o mesmo: no sempre hipotético fim da história, economia socialista ou economia mista? É uma das dimensões de uma questão mais profunda, sobre o que é uma sociedade desejável. A verdadeira social-democracia continua a debater-se na tenaz do dilema. Porque, se não há economias socialistas depois do seu colapso, que acabou com a guerra fria, se escasseia a produção de conhecimento económico sobre a possibilidade de uma intervenção do estado racional e eficiente, a economia mista também corre o risco de se perder numa posição reativa que desvanece perante as certezas e a fé de uma nova direita. Em contraciclo às dúvidas, conquista-se uma certeza na garantia do pluralismo, que se torna uma preocupação de esquerda, o que há de ter consequências no plano económico e social, na organização da sociedade e nas instituições, no equilíbrio entre o estado, o mercado e o indivíduo.

Na esquerda reformista, quando se olha para o horizonte, para um imaginário desejável, o que se vê? Não é certo que seja o ideal o que faz mover as ideias no campo da política. Mas, se o for pelo menos em parte, ainda que as políticas concretas e os meios de o atingir sejam incertos, ainda que a luta pelo poder seja dura e suja, será o ideal a dar sentido à ação. Sem ideais, a ação política caminha perdida, aguardando uma derrota.

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publicado às 01:58

Como passei de cético a geringonço

por pedrop, em 26.11.17

Costumo dizer que ninguém ficou igual depois da crise. É certo que todos nós vamos mudando ao longo do tempo – a inércia é hipervalorizada como se fosse coerência, quando a mudança, desde que seja bem-intencionada, merece ser saudada, enquanto aprendizagem, progresso e experiência. Ainda está por escrever a história da mudança nas convicções no período 2008-12. O choque da crise foi tão profundo que abalou as ideias das pessoas duma forma paradigmática. Redefiniu orientações políticas de muita gente, que caminhou para a esquerda ou para a direita. A crise financeira e a resposta dada pela direita liberal no governo levaram-me para a esquerda, num exercício de revisão que ainda não está concluído, nem sei se alguma vez estará.  

Nos anos de Passos, o PS sempre ficou um pouco aquém das expectativas nas propostas – primeiro com António José Seguro, depois com António Costa. Percebia-se porquê: havia um espartilho europeu. O que era necessário fazer exigia uma mudança radical do quadro jurídico existente em matéria económica, monetária e de finanças públicas, no quadro duma reforma progressista e solidária dos tratados e das instituições europeias, o que parecia impossível. Por outro lado, sair da União Europeia e do euro implicava um novo choque económico, além do choque político contra um europeísmo que o PS sempre teve, e que o país tem.

A candidatura de António Costa à liderança do PS não se fundamentava neste problema. Era uma candidatura extemporânea, fora do calendário eleitoral, e que não tinha explicação na razão apresentada – o PS vinha vencendo eleições. Dias depois de congratular o partido pelo resultado nas eleições europeias de 2014, Costa avançou, dizendo que não se podia vencer por “poucochinho”, tentando aplicar um argumento válido numa situação de derrota a um conjunto de ganhos eleitorais. O fundamento do seu avanço foi motivado apenas pelo calendário legislativo. Por isso, eu, simpatizante do PS que vinha criticando alguns aspetos da oposição, decidi esquecer quaisquer considerações pessoais ou juízos de probabilidade, e concentrei-me neste aspeto racional. Apoiei e votei em Seguro. Costa venceu. O meu posicionamento, de que não me arrependo minimamente, impedir-me-ia de ter em conta as suas qualidades, que o levariam ao governo e ao atual sucesso na governação.

O programa que o PS apresentou às legislativas também não veio resolver algumas das questões fundamentais – porque parecia impossível responder-lhes. Na oposição, Costa acabou por não ser muito diferente de Seguro, como eu antevira. Não se tratava, afinal, dum problema pessoal de liderança, mas do velho problema estrutural da social-democracia europeia. Sem a preparação necessária da liderança e saído duma dura crise interna, o PS acabou por perder as legislativas para o governo que mais prejudicara o país em décadas, que obteve maioria relativa no parlamento. No entanto, a combinação destes ingredientes permitiu uma solução inesperada – a geringonça.

Pressionavam para o entendimento à esquerda a ameaça de um novo governo de Passos, a posição de vulnerabilidade do PS, a relação de confiança que se estabelecera nos anos da troika entre alguns dos “costistas” (nem todos, como se sabe) e alguns dirigentes dos partidos à esquerda (também nem todos), e a ideia de que o maior problema nas eleições legislativas tinha sido a desconfiança das pessoas face à possibilidade de uma alternativa às soluções da governação anterior. Mas geringonça colocava várias questões. Tinha um problema de legitimidade, porque nunca na campanha se admitira tal possibilidade perante os eleitores. Além disso, parecia uma tábua de salvação para Costa e uma oportunidade para os partidos à esquerda enterrarem o PS a prazo. A fórmula encontrada não previa mais do que ténues acordos parlamentares, que nem sequer foram assinados em conjunto. Não acreditei que a geringonça pudesse resultar. Mesmo os mais entusiastas tinham as maiores dúvidas, mas valiam-se do idealismo sobre o pragmatismo.

O maior dos problemas era a chamada quadratura do círculo: como conjugar as exigências da esquerda com o espartilho das instituições e legislação europeias? Muita gente supôs, e eu também, que surgiria logo um momento de tensão que afundaria o governo e, com ele, a oportunidade política de uma alternativa, atirando o país de volta ao caminho único apresentado pelo governo liberal. A verdade é que se ensaiou uma crise entre as instituições europeias e o governo português, mas, ao contrário do que se especulava, este levou a melhor. Em primeiro lugar, o equilíbrio interno de forças na Comissão Europeia, apesar de continuar a negar a necessária mudança radical do desenho da união económica e monetária, permitiu uma solução um pouco mais tolerante, pela intervenção do presidente Juncker e do comissário Moscovici, dando tempo a Portugal. Por sua vez, a aplicação dum programa alternativo produziu logo resultados económicos que ajudaram a consolidar as contas públicas. Os dados são inegáveis: existe reposição de rendimentos e benefícios da classe média e dos mais pobres, a economia e o emprego crescem de forma sustentada, o défice orçamental desce para níveis que se podem considerar irracionalmente baixos, apesar da retórica dominante.

A verdade é que não levei em devida conta o faro político e a capacidade negocial de Costa, nem antevi a força com que os eleitores depois passariam a pressionar os partidos à esquerda para não romperem os acordos. Mas estes antigos “partidos de protesto” também acabaram por manifestar um sentido de responsabilidade enorme. Ao manterem a estabilidade governativa e ao aceitarem uma consolidação orçamental cujas exigências têm abrandado a redução da austeridade, BE e CDU quebraram o chamado arco da governação. Hoje o parlamento já não se divide entre os que têm aptidão para participar no jogo e os excluídos do outro lado do muro.

Nunca acreditei que a geringonça pudesse funcionar, mas o facto é que funcionou. Esta não é alternativa de ninguém e é a alternativa de todos, porque produz medidas negociadas em cada questão concreta e conjuga exigências contraditórias. Daí resulta a crítica de que não há uma política definida e pensada em cada setor da governação. Em parte, isso acontece porque tudo assenta em compromissos. O parlamentarismo é um sistema de governo a que não estamos habituados a ver, nem a fazer. Além disso, é claro, as soluções individuais concretas podem e devem ser questionadas, como a aposta nos impostos indiretos, que merece um profundo debate. Mas a grande questão é sobre o que acontecerá depois da irrepetível geringonça. Afinal, havia alternativas.

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publicado às 01:59

A tolerância e os intolerantes

por pedrop, em 20.01.17

Ricardo Araújo Pereira mete mais uma vez os pés pelas mãos: "está na moda ser intolerante com a intolerância – uma ideia arrepiante que, aliás, se rejeita a si mesma". Tendo estado a acompanhar a novelesca história das últimas semanas, com os diálogos e debates que têm decorrido, julgo que neste caso posso dar um esclarecimento necessário face a uma confusão conceptual.

Um ato intolerante é relativo à conduta de outra pessoa. Mas e se esse outra conduta for, ela própria, intolerante (portanto, relativa à conduta de ainda outra pessoa)? Não há um dever de tolerância apenas pelo facto de a conduta objeto de juízo assentar, ela própria, num juízo sobre outra conduta. Tudo depende da fundamentação. Há, é certo, um paradoxo difícil, que pode gerar uma redundância inelutável: A é intolerante com B, porque B é intolerante com A; B é intolerante com A, porque A é intolerante com B. É preciso, por isso, distinguir a intolerância (que nega a tolerância como norma, isto é, que recusa que se possa tolerar o que se considera errado) da "intolerância" de quem recusa a negação da norma (o que, na verdade, não é intolerância) - é a fórmula dada pelo filósofo alemão Rainer Forst. Quem nega a norma de tolerância é que despoleta a situação de intolerância, podendo o outro sujeito não tolerar, depois, essa negação. A intolerância e a não tolerância dessa intolerância não são situações moralmente idênticas. A questão é saber quando é que se nega a norma de tolerância (e, portanto, há um comportamento intolerante), o que exige o estabelecimento dos limites da própria tolerância.

Ora, a tolerância decorre de dois momentos fundamentais: perante o comportamento ou a convicção de outrem, opostos aos valores do agente, este formula um juízo moral negativo (objeção), mas decide que, não obstante, deve respeitar esse comportamento ou essa convicção, não criticar ou, pelo menos, evitar reprimi-los, porque há bons motivos para isso (aceitação). A questão é saber a partir de que momento um comportamento objetável deixa de ser aceitável: seja porque são frágeis os motivos para a aceitação, seja porque a objeção é tão forte que se deve rejeitar o comportamento, embora haja motivos razoáveis para a aceitação (rejeição). Exige-se uma comparação difícil, que depende de fundamentos extrínsecos à própria ideia de tolerância - que não é um conceito autónomo, nem autossuficiente. De qualquer forma, não se pode dizer que o sujeito é intolerante, se, objetando razoavelmente uma conduta de outrem, resolve não a tolerar numa situação em que os motivos para a aceitação eram comparativamente insuficientes - nesse caso, não cabe a um terceiro decidir tolerar ou não tolerar essa decisão (porque nem sequer tem motivos para a objeção inicial). Mas, se o sujeito for, realmente, intolerante (negando a norma de tolerância), é possível, depois, a um terceiro considerar que essa decisão de intolerância não é tolerável - sem que se possa dizer que este último é, necessariamente, intolerante. Tal como no ato de primeiro grau, tudo depende de haver, na comparação entre os motivos de objeção e dos motivos de aceitação, uma conclusão pela rejeição. Quem rejeita o comportamento intolerante pode, hipoteticamente, estar a ser intolerante. Mas é muito difícil: porque a intolerância suscita uma objeção moral forte, sendo improvável que haja motivos de aceitação claramente superiores que exijam que se tolere um ato intolerante.

Do conceito de tolerância assim exposto, resulta outra impressão. Ricardo Araújo Pereira parece escudar-se no paradoxo da "intolerância face à intolerância" para justificar coisas que não são, sequer decisões de intolerância. Alguém que insulte outra pessoa com base na cor não é intolerante - é racista. Intolerante é quem, perante um motivo de objeção fraca e um motivo de aceitação forte a uma prática ou convicção alheias, decide não tolerar essa conduta. Trata-se, portanto, duma rejeição desproporcionada. Isso não ocorre quando não decorre, sequer, duma objeção a uma conduta: a convicção racista não é base para juízos morais sobre a cor de ninguém. Por isso, quem não tolera um racista pode eventualmente ser intolerante, mas não está, em momento algum, a cair num paradoxo de "intolerância face à intolerância". Em bom rigor, o facto de alguém não aceitar alguma coisa noutra pessoa não implica, necessariamente, intolerância (podendo embora ser igualmente nefasto e censurável).

Como reagir perante a intolerância é, de facto, uma situação problemática, podendo discutir-se se deve ser tolerada ou não. Tudo depende do tipo e do grau de intolerância manifestada, bem como dos fundamentos para a tolerar ou não. Qualquer decisão de tolerância depende da situação existente. Importa, ainda, ter em conta que a tolerância pode assumir várias configurações (tolerância passiva, tolerância ativa). Pode ser que um comportamento intolerante, dependendo da sua gravidade, deva ser fortemente criticado sem ser reprimido. E pode ser tolerado de forma permissiva sem que haja uma tolerância entendida como respeito. Mas é um exercício de fuga responder às dificuldades que o tema suscita com uma recusa geral em discutir a intolerância, como se isso fosse tolerante, e com indignação genérica face a qualquer recusa em tolerar a intolerância, sem discutir os fundamentos, como se a decisão de não tolerar a intolerância fosse mais grave do que a própria intolerância.

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publicado às 13:44