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Brasil transfigurado

por pedrop, em 24.03.18

Os que protestaram contra Lula no Rio Grande do Sul são apoiantes de Bolsonaro e ruralistas. Compraram espaços em outdoors, mas não fizeram discursos, optaram por bonecos de Lula como presidiário, e adotaram o método das manifestações violentas, agredindo apoiantes e tentando travar a caravana com armas de fogo. O governo do estado, de direita, recusou reforçar a segurança e a caravana acabou encurtada no último dia, contrariando as garantias de que continuaria inalterada. Para derrubar a esquerda, os líderes da direita laica e liberal estimularam e financiaram grupos extremistas, como o MBL ou o site “O Antagonista”. Os protestos de 2013, que começaram por ter reivindicações progressistas, acabaram sequestrados por uma agenda oposta, um pouco à semelhança do que aconteceu com a primavera árabe, num processo que desembocou numa crise política e económica, no derrube de Dilma, num governo Temer que aplica um programa oposto ao sufragado nas urnas em 2014, e na degeneração do combate à corrupção numa atuação judicial partidarizada.  

Não é por acaso que os opositores de Lula usam como símbolo um boneco do ex-presidente vestido como presidiário, um pixuleco. A imagem é muito mais importante do que parece, porque representa a confluência de dois importantes movimentos. Por um lado, está em curso a transfiguração da direita brasileira, por outro uma boa parte da magistratura atua politicamente, o que significa que há uma rutura institucional e uma crise constitucional. A cumplicidade tática da direita liberal (herdeira e órfã de Fernando Henrique Cardoso, no PSDB, mas também no DEM) com a direita fascista acabou por alterar a sua própria natureza. Líderes políticos dos partidos da direita moderada são cúmplices com as táticas do MBL, com assassinatos policiais ou com manifestantes violentos. Alguns, como o prefeito de São Paulo, João Dória, até adotam o discurso da direita fascista. Muitos dos cidadãos alinhados à direita, que defendiam o pluralismo, hoje pretendem silenciar os adversários ou prendê-los. Muitos dos que, mesmo discordando, até aceitavam Lula hoje odeiam-no, não porque ele tenha mudado, mas porque mudaram eles. É preciso entender este fenómeno de radicalização e como aconteceu. É um processo muitas vezes involuntário da parte de quem se radicaliza, mas meticulosamente planeado por quem instiga. Se, em parte, o movimento saiu do controlo dos seus próprios criadores, existe uma atuação concertada e consciente da maior parte da imprensa na manutenção de um clima de ódio contra a esquerda.

Parece bizarro, quem ouve falar nisto de fora não acredita. Torna-se surpreendente e, sobretudo, chocante para quem resolva prestar atenção. Há dois bons exemplos: o relato do processo de impeachment de Dilma, sem qualquer crime de responsabilidade, dando a entender constantemente ao cidadão o oposto; e o relato do processo Lula, procurando desesperadamente transparecer a normalidade duma acusação sem provas nem imputação de conduta criminosa, e de condenações com fundamentações bizarras e contorcionistas. Entender porque é que a imprensa brasileira atua desta forma exige contextualização. Exige observar o elevado grau de concentração dum universo televisivo e escrito aparentemente muito diversificado – é, na verdade, uma mão cheia de grandes conglomerados. E exige reconhecer a vulgaridade histórica dessa atuação. A imprensa brasileira apoiou um golpe de estado em 1964 e celebrou uma condenação do ex-presidente Juscelino Kubistschek pela ditadura. Desde então, foram décadas de atuação concertada contra a esquerda, culminando em notícias tão bizarras contra Lula como é agora o caso do “triplex” – veja-se o “carro do Lula” (no youtube é possível encontrar reportagens da altura), a manipulação, pela TV Globo, do resumo do último debate presidencial entre Lula e Collor, em 1989, ou o caso Proconsult, em 1982, ponto mais quente da guerra entre as organizações Globo e outro líder da esquerda brasileira, Leonel Brizola. O Brasil vive uma longa batalha entre a esquerda e a comunicação social dominante que Lula, como presidente, cometeu o erro de tentar ultrapassar ignorando o passado.

O momento que o Brasil vive tem a influência determinante de fatores culturais e sociais. O que também possibilita uma atuação de classe tão forte e escancarada da parte de empresários, políticos, jornalistas e magistrados é haver um Brasil profundamente dividido e sofrido. Gosto de dizer que alguma direita portuguesa gostaria de ser como a brasileira, mas não consegue. O Brasil ainda não se recuperou da colonização. De certa forma, continua colonizado, sem ter um colonizador e, muitas vezes, sem sequer se aperceber de que é ainda um país colonizado. O Brasil saiu do império português, mas Portugal continuou dentro do Brasil, no bom e no mau. Existe um apartheid social, retratado no “ódio ao pobre”, tão frequente, tão assumido como normal no contexto familiar e de amizade pelas elites e pela classe média, mas ao mesmo tempo tão escondido e ignorado no discurso público, como se não influenciasse as decisões políticas, ou como se se reconhecesse que é errado. A célebre figura do “Caco Antibes” não é tão caricatural como a sua raridade faz crer. É um dos raros momentos em que é dito publicamente o que acontece no dia a dia. O apartheid social brasileiro tem cor, a cor negra da escravatura, e tem a força da ignorância, porque é promovido através do engano e da exploração a um nível só possível quando o sistema de educação pública funciona tão mal.

O brasileiro de elite que odeia o pobre vem para a Europa e fica maravilhado com o resultado de políticas opostas às que ele defende, porque o europeu é branco e a política já foi implementada. Volta ao Brasil e vê que algo está errado, mas não consegue libertar-se do sentimento que o impele a atacar o sintoma em vez da doença. Culpa o povo, quando deveria culpar a política e a imprensa que tem. Os jogadores que provocaram esta radicalização sabiam perfeitamente que teclas tocar. O problema é que a maioria da população que resulta desta colonização e que é tão explorada aprendeu a votar. Não vota nos vários bonecos que lhe são apresentados, todos dizendo mais ou menos o mesmo em linguagens diferentes, com amplo espaço na imprensa e na TV. O ódio é politizado e canalisado contra aqueles que possam ser votados por esse povo – intensamente, todos os dias, contra qualquer um que apareça. Lula é o mais forte deles, forte como poucos no Brasil e em qualquer lugar. Foi ele, não Brizola, quem rompeu o destino inevitável do Brasil. Vencerá novamente e, por isso, é o inimigo.

Tudo isto tem impacto nas magistraturas, como não poderia deixar de ter. Neste contexto, compreende-se que exista uma corrente fortemente politizada entre magistrados, com uma orientação de direita, que se aproxima da extrema direita, que atua de forma partidária e com uma elevada consciência de classe, instrumentalizando, no momento atual, até os mecanismos da justiça penal para dar respaldo ao seu grupo político, que lhe implora que prenda o adversário. E implora diretamente, com jornalistas que falam abertamente na necessidade de Lula não poder ser candidato. Esta fusão entre a política e a justiça é bem ilustrada pelo “pixuleco” em que Lula é reduzido a inimigo a eliminar do combate político através do encarceramento numa prisão. O slogan político é substituído por um pedido de condenação. A urna de voto é substituída por uma sentença. O eleitor pobre é substituído por um juiz que vem das elites. A última coisa que está em causa é o “direito penal do facto”, célebre máxima do liberalismo político nos temas criminais. É o direito penal do inimigo, que traduz um sistema institucional moderno, à francesa, e democrático ser implodido diante dos olhos dos brasileiros e das brasileiras.

O Brasil lutou para ser uma sociedade diferente daquilo a que estava condenado. Lutou com “alegria e progresso”, em vez de “ordem e progresso”. Até elegeu uma mulher presidenta. Vive o ocaso da mudança e uma tentativa de regresso ao cumprimento da pena a que estava condenado. O mesmo é dizer que vive uma crise constitucional. As instituições fingem atuar numa normalidade formal, enquanto atuam substancialmente com total descaso pela constituição. A sociedade está em desagregação. Cada dia, há uma notícia mais monstruosa – o fim dos direitos laborais, a venda a retalho das riquezas naturais, a educação que agora vai ser à distância, a morte de opositores, a investigação criminal contra conteúdos curriculares em universidades que desagradam a magistrados conservadores, a proibição de exposições em galerias de arte. Já quase nada surpreende. O povo foi levado às ruas com intenso estímulo da grande imprensa por uma causa enganosa, um impeachment que tudo resolveria – e que tudo resolveu apenas para os 3% de brasileiros que dele beneficiam agora, contra o resto do país. Foi um engodo. Hoje, os manifestantes de 2016 merecem o epíteto de "manifestoches", celebrizado no cortejo carnavalesco da escola de samba Tuiuti (cujo enredo partilho abaixo). Agora o povo manifesta-se apenas nas intenções de voto, fazendo ressuscitar o Partido dos Trabalhadores, elevado ao estatuto de partido com mais simpatizantes, e dizendo que vota em Lula, enquanto a grande imprensa se esforça em táticas de desmobilização de qualquer potencial movimento de protesto nas ruas e exige a prisão do próprio Lula.

Isso é que é surpreendente: não conseguiram matar a esperança.

 

 

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publicado às 17:47