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Combater a extrema-direita

por pedrop, em 23.07.18

Gerou-se uma bibliografia sobre a ascensão da extrema-direita pelo mundo, e a maior parte dela é inóqua e irrelevante. Pensei muita coisa nos últimos anos sobre isso, não raro de forma contraditória. A ideia que tenho hoje é que a questão fundamental não é o "populismo", nem é o "fake news" - nem a solução, se quisermos manter a democracia, pode ser baseada apenas em ameaçar ou ensinar as pessoas a votar. Quem faz assentar toda a estratégia nessa perspetiva, que é uma perspetiva a jusante, pretende, na verdade, manter  a inércia sobre um determinado estado de coisas, a montante, que é insatisfatório e sufocante, que se apresenta como não tendo alternativas. Existe um jogo de invisibilidade, em que um poder tornado invisível, pretensamente não escrutinável e inamovível eleitoralmente, impõe opções políticas pretensamente irrevogáveis e cujo caráter político é, ele próprio, tornado invisível. O seu próprio nome é difícil de identificar, mas está ligado a palavras como "globalização", que emergiu há duas décadas, e as mais recentes "austeridade" e "reformas estruturais", bem como a uma certa conceção de "responsabilidade", de "meritocracia", de "realidade" ou de "inevitabilidade" face a mudanças que afetam negativamente a qualidade de vida e a autodeterminação das pessoas, embora se proclame o seu oposto.

Existe, portanto, um autoritarismo invisível que, desafiado pelo dito "populismo", se torna sucessivamente mais visível para o combater, através da formalização do condicionamento dos meios pelos quais a insatisfação se manifesta. É uma lógica repressiva que, para manter o estado de coisas, faz cair a máscara de invisibilidade do poder que o sustenta. Exemplo disso é a proposta de repetição de eleições e referendos quando as pessoas votam mal, caminho pelo qual eu também enveredei, a propósito das eleições americanas de 2016, mas que recuso continuar a fazer e que se tem feito intensamente em relação ao Brexit. 

Pelo contrário, o essencial da solução que vislumbro é dar mais poder às pessoas comuns, fazê-las cada vez mais donas do seu destino, aumentar a sua autodeterminação em concreto. É preciso responder, a montante, contrariando o aprisionamento político e pessoal. Isso só é possível através de políticas de igualdade e políticas sociais que visem especificamente garantir que cada pessoa tenha um espaço de decisão, de atuação, e de poder de compra que corresponda ao espaço crescente de opinião e de associação de indivíduos que ocorre com a internet e com as redes sociais. Não tenho pretensão de propor um programa de governo popular, mas posso exemplificar preocupações concretas que deveriam ser levadas em conta: aumento progressivo de rendimentos, criação de oportunidades de desenvolvimento pessoal e social, acesso ao conhecimento, expansão do debate e dos mecanismos democráticos de decisão participativa e direta, supressão das maiores desigualdades económicas, sociais e políticas (ricos cada vez menos ricos, políticos cada vez menos poderosos). Algo que desanuviou significativamente a situação no caso português foi a recuperação de rendimentos promovida nos últimos anos. É insuficiente, mas demonstrou a sua utilidade.

Quem se preocupa com a extrema-direita o que tem de fazer é procurar reformas e políticas fundamentalmente diferentes das que existem, direcionadas especificamente para diminuir o desamparo dos cidadãos comuns e para recuperar a sua autonomia e o seu autogoverno. Não basta defender o que está duma forma cada vez mais repressiva e agressiva, é preciso perceber que o que está não é bom, que é injusto, que aprisiona de uma forma subtil e que, dessa forma, promove a insatisfação, sendo certo que tal insatisfação é transfigurada numa reação ainda mais injusta.  Evidentemente, tal preocupação com a recuperação do estatuto social do cidadão comum e do povo traduz uma orientação política muito diferente da de muitos que pretendem ser os protagonistas do combate que temos de fazer. Por isso, é preciso que os protagonistas políticos atuais mudem as suas ambições - ou que se mude rapidamente de protagonistas.

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publicado às 02:29