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Entre o socialismo e a social-democracia

por pedrop, em 23.02.18

Escrevo a propósito do congresso do PSD, dos problemas colocados na definição de “social-democracia” e do debate de ideias que começa a surgir dentro da chamada geringonça sobre o que fazer daqui em diante, e sobre os pressupostos filosóficos dos quais se deve partir. Coloco-me entre os que defendem uma economia mista, o que não é uma posição tão fácil como poderia parecer do ponto de vista teórico, nem representa o status quo existente, dado que o setor público da economia se apresenta hoje, em Portugal como em muitos outros países, esvaziado e subdimensionado, fruto de privatizações e liberalizações que os defensores da economia mista permitiram e não reverteram. O PS, apesar do seu realinhamento à esquerda, não propõe inverter este novo estado de coisas.

O reformismo da esquerda é diferente do reformismo da direita. Não se pretende privatizar, flexibilizar, liberalizar – embora o objetivo de eficiência económica também possa estar presente, com soluções que são diferentes. As reformas de esquerda são anteriores e prosseguem uma organização económica e social que se pretende mais equitativa do que a que assenta no mercado. O reformismo aparece como alternativa aos males da revolução, alternativa que parte da construção de três edifícios fundamentais – direito do trabalho, estado social, setor público da economia.

A dada altura, o objetivo comum socialista esbate-se num momento transitório cada vez maior. Fica em questão o próprio objetivo, se é ainda a superação do capitalismo, ou se é a correção dos seus males, numa coexistência e confluência de racionalidades socialista e capitalista na mesma realidade, um equilíbrio virtuoso do melhor dos dois mundos. Por fim, são postas em causa as próprias reformas, revertidas numa terceira via que se confunde com um liberalismo assistencialista – a esquerda não será mais do que uma sensibilidade social.

Um dos problemas que se colocam a esta esquerda reformista ainda é o mesmo: no sempre hipotético fim da história, economia socialista ou economia mista? É uma das dimensões de uma questão mais profunda, sobre o que é uma sociedade desejável. A verdadeira social-democracia continua a debater-se na tenaz do dilema. Porque, se não há economias socialistas depois do seu colapso, que acabou com a guerra fria, se escasseia a produção de conhecimento económico sobre a possibilidade de uma intervenção do estado racional e eficiente, a economia mista também corre o risco de se perder numa posição reativa que desvanece perante as certezas e a fé de uma nova direita. Em contraciclo às dúvidas, conquista-se uma certeza na garantia do pluralismo, que se torna uma preocupação de esquerda, o que há de ter consequências no plano económico e social, na organização da sociedade e nas instituições, no equilíbrio entre o estado, o mercado e o indivíduo.

Na esquerda reformista, quando se olha para o horizonte, para um imaginário desejável, o que se vê? Não é certo que seja o ideal o que faz mover as ideias no campo da política. Mas, se o for pelo menos em parte, ainda que as políticas concretas e os meios de o atingir sejam incertos, ainda que a luta pelo poder seja dura e suja, será o ideal a dar sentido à ação. Sem ideais, a ação política caminha perdida, aguardando uma derrota.

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publicado às 01:58