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Eu sou Lula

por pedrop, em 12.04.18

 Acredito na inocência de Lula. E hoje acredito com a emoção de ter passado o último fim de semana quase em claro até à sua prisão – o simbolismo do sindicato, o povo reunido para o defender, o discurso histórico (que adversários tacanhos tentam reduzir falaciosamente a uma frase corriqueira, das tantas que Lula tem), a decisão de se entregar a uma pena injusta de um poder arbitrário, quando poderia ir para o exílio ou esconder-se no Brasil profundo. Vi a História ser feita e percebi finalmente o que é o lulismo, que só se percebe quando se tem emoção. Ao ver a grandeza de um homem que se entrega à injustiça, tive um profundo orgulho de estar deste lado e não do outro. Chorei tanto, tanto pela injustiça como por admiração.

Nem sempre foi assim. Fui entusiasta da reeleição da Dilma, mas, quando surgiram as acusações genéricas contra Lula, distanciei-me, julguei que fossem sérias – leviandade de que hoje me arrependo e que tento reparar a cada dia. Depois fui ler em que consistiam essas acusações, e levei uma surpresa, porque não passavam no crivo dum juízo de mínima seriedade. Foi num exercício crítico que a minha posição se alterou, em contrassenso ao meu próprio preconceito. Foi uma posição assente na razão. Por isso, não admito que nenhum comentador político português diga que a minha posição e a de tantos outros é de seguidismo, ou de emoção sem razão. Talvez devesse abster-me de comentar um texto tão falacioso e vácuo. Talvez merecesse o silêncio, mas enfim.

Sei bem por que o faz: ataca Lula só para atacar José Sócrates, o que, de resto, revela ao final do texto, como se um fosse o outro. É uma estratégia que certa direita portuguesa tem tido nos últimos tempos. De pouco importa o que esteja em causa no caso Lula, importa atacar ao máximo, porque aqui, deste lado do Atlântico, há o caso Sócrates para ser julgado. Como as coisas podem cair na mistura, mistura-se imediatamente e o Lula é nada mais do que um “corrupto”. É uma coisa ao género da inquisição. Eu, que estou há dois anos nisto, não consigo conter um sorriso quando, interrogados sobre as provas e os crimes de Lula, desesperam em busca delas, acabando por erguer uma notícia do Estadão ou da Globo – como se desses dois fosse de esperar outra coisa que não a tentativa de justificar a sua própria perseguição a Lula, de onde partiram processos, sendo peças da Globo apresentadas como “prova”, e de onde a “jurisprudência” Moro foi sendo estimulada mediaticamente, para hoje ocupar boa parte da magistratura.

Lula é mais do que alguém acusado de corrupção. É um dos maiores líderes políticos vivos no planeta. É o líder da oposição a um golpe que depôs Dilma, a presidenta eleita. É o candidato que vai na frente em todas as pesquisas de opinião, porque defende os pobres e a reversão das políticas implementadas no golpe, perante uma elite que não o aceita, e de onde saem juízes que o perseguem estimulados por uma imprensa dominada por essa mesma elite. Porque, se Lula é mais do que estes processos, o Brasil é mais do que um país onde há tribunais que julgam na abstração do Direito. É um país que vive num apartheid social, cuja elite só não se rebelou contra Lula antes porque o crescimento económico histórico dos “anos do PT” aplacou o ódio social. Digo isto como brasileiro que também sou. É um país que vive uma crise constitucional. E os tribunais fazem política. Muitos estranharão a hipótese de haver uma atuação deliberada e política da imprensa e de boa parte da magistratura, agindo por má-fé e movidos por uma orientação ultraconservadora. Não é uma teoria da conspiração, nem um populismo. O fenómeno não envolve necessariamente uma concertação deliberada. É o que acontece num país em crise constitucional, ainda por cima quando se trata de uma sociedade de profunda segmentação social. Os poderes constitucionais misturam-se. O Direito é usado como uma folha de papel, vendo nele o que não está lá. Existe uma profunda atuação de classe. Aconteceu na África do Sul do apartheid. Acontece no Brasil do apartheid social.

A cinco meses das eleições, Lula é preso num processo de exceção, recheado de abusos, de atropelos formais, e ao qual falta qualquer substância incriminatória. Mesmo sem nada terem encontrado contra Lula, continuaram, porque o desfecho estava estabelecido antes de qualquer julgamento. Ao contrário de Lula, tudo se encontrou sobre outros, mas é ele que figura na representação social da elite brasileira como o chefe do “mecanismo”. Porque Lula é tão forte que tem de ser abatido através da humilhação. Só que, como alguém disse, com um curso de torneiro-mecânico ele sozinho tem em inteligência o que a elite tem em poder. E não se deixou humilhar, nem mesmo no momento da prisão. Ao contrário do que alguns assumem, ao dizer que é agora uma ideia, Lula não adotou uma posição majestática, mas o oposto. Em entrevista para o livro A verdade vencerá, dizia que o seu próprio sucesso é um produto coletivo, mais do que individual: "Tudo foi construção coletiva; nada teria sido possível por mérito individual. Sempre tive comigo milhares  e milhares de companheiros que acreditaram; então, é pra essa gente que eu trabalho. Não é pro Moro que eu digo que sou honesto, é pra essa gente, a quem devo o que eu fui e o que sou".

Para mim, e para tantos outros e tantas outras, é o momento da resistência. É o momento de denunciar o que aconteceu, de defender Lula, por muito que nos ataquem. É o momento da organização de movimentos pela sua libertação, aliada à construção duma ideia otimista para o futuro do Brasil, um futuro após estes tempos de desigualdade exacerbada que ameaça descambar para o fascismo. Decidiram prendê-lo e querem calar-nos. Acabaram por gerar um mito e produzir a união de todos os que se revoltam perante a injustiça. Com razão e com paixão, a resistência só agora começou.

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publicado às 09:42