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Fake News

por pedrop, em 15.08.18

Quando se fala em "fake news" da extrema-direita, há a ideia de que alguém engana as pessoas, que estas pessoas acreditam no que leem e que, em consequência, se encaminham para a ideologia pretendida. A estratégia assente no encerramento de contas nas redes sociais, na criação de "fact checking" e na denúncia de "fake news" parte dessa ideia. Só que as coisas não me parecem ser tão simples. Em muitos casos, o recetor da "fake news" não é apenas um crédulo enganado, mas alguém que se deixa enganar, que tem gosto em ser engando, e que reproduz o discurso enganado mesmo quando confrontado com a evidência de que é falso, tornando-se cúmplice.

Todos temos resistência em admitir que a nossa primeira impressão de algo está errada, sobretudo quando a revelação não é feita por nós e sim por outra pessoa, em confronto. Faz parte das condicionantes psicológicas do que é um ser humano. Mas a partilha de "fake news" envolve algo mais: a pessoa partilha uma notícia falsa, que é bastante provável logo na primeira leitura que seja falsa, mas que não resiste a partilhar. No fundo, a pessoa quer que aquilo seja verdade, mesmo que não seja.

E quando a notícia é refutada racionalmente? A pessoa poderia travar o seu desejo, se tivesse um compromisso com a razão, mas o que vemos é que fica imune, não altera nada. Procura escapar ao facto de ter sido refutada por recurso à ofensa contra o interlocutor, a todo o tipo de falácias ou a outras notícias falsas que encontre para partilhar - tudo para não reconhecer o erro. De resto, é algo que se entrelaça com a corrente política em causa, que pretende, justamente, contrariar o que está estabelecido, o sistema, não através de um novo exercício racional que critique o que é injusto ou o que é mau no sistema, mas na afirmação do irracional, do íntimo de revolta, de preconceito e de ódio - procurando, não debater e lidar com eles, mas justificá-los, tal como nos surgem, com quaisquer pretextos que driblem qualquer objeção, afirmando tais sentimentos como legítimos. 

É uma corrente que advoga uma involução ou uma animalização da política e do próprio ser humano, recusando o auto-questionamento. A dúvida passa a ser um problema. O que se impõe é que tenhamos certezas - e certezas imediatas, que não são estabelecidas através da reflexão, mas da impressão sem mais, sem que essa impressão possa ser objeto de qualquer dúvida posterior ou reavaliação. O argumento racional de nada vale.

Uma consequência natural é a completa fragilidade da teoria de sociedade ou do ideal de sociedade desta corrente. Não vai muito além de jargões de conteúdo negativo: não haver terrorismo, não perverter a nossa cultura. Quando se questiona pelos direitos e deveres que cada cidadão deve ter, sobre o que é justo, pela dignidade da pessoa humana, a certeza esvai-se em contradições. Interessa notar que é uma fragilidade ainda maior do que a dos fanáticos islâmicos, por exemplo. Porque a vergonha do nazismo e do fascismo continua a por-lhe freio, ainda que esse freio seja cada vez mais frágil. 

Paralelamente, os que a tentam normalizar fazem-no numa formulação indireta, tentando equiparar, de forma falaciosa, ao comunismo. No fundo, tentam dizer aos que atacam esta extrema-direita que, se aceitam ideias comunistas e igualitaristas radicais no debate, também deveriam aceitar a defesa irracional do ódio e da desigualidade radical.

De qualquer forma, a questão não é tanto sobre as fake news, mas fundamentalmente sobre a extrema-direita. 

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publicado às 18:41