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O que fazer para conter a extrema-direita?

por pedrop, em 15.08.18

Se a questão não é tanto as fake news, mas sim a ascensão da extrema-direita, importa discutir o que fazer para a contrariar, porque é um dos maiores perigos que enfrentamos. O que abaixo defendo poderia ser sistematizado desta forma: (1) prevenir e suprir as condições que permitem a ascensão da extrema-direita, nomeadamente na educação, na política económica e na participação política; (2) nunca aceitar a extrema-direita como normal, combatê-la e isolá-la como perigo existencial que é, não tolerar ameaças, denunciar sempre manifestações diretas de ódio, reprimindo-as, mas (3) estabelecer condições de desradicalização das pessoas que manifestem essas ideias no presente, para (4) permitir o diálogo efetivo, colocando as pessoas que são alvo da extrema-direita numa posição privilegiada desse diálogo.

 

Acredito que a primeira e mais importante estratégia é a montante, esvaziando as causas para a sua ascensão, que são causas objetivas de insatisfação - nomeadamente, os problemas na economia e na política económica, fiscal e financeira que se traduzem em maior desigualdade e estagnação de rendimentos, e os problemas de desempoderamento dos cidadãos nas decisões políticas. Escrevi um pouco sobre isso há uns tempos, aqui. Com isto não se deve confundir um certo apelo que tem havido a que os partidos do sistema adotem, eles próprios, programas mais próximos da extrema-direita, como medidas agressivas de imigração, construção de muros impenetráveis, deixar que adultos e crianças perdidos no mediterrâneo morram afogados, retirar cidadania a quem cometa crimes se fizer parte duma dada minoria. Prosseguir tal política significaria que, afinal, não haveria sequer fundamento para conter a extrema-direita, porque as suas ideias não seriam tão nefastas quanto isso.

O que está em causa são problemas anteriores à canalização contra as minorias da insatisfação existente - problemas que alguma direita, algum centrismo e algum europeísmo não pretendem resolver. Acrescentaria um outro problema que é o desconhecimento. Raramente se encontrará nos programas de educação nos países ocidentais o ensino de línguas como o árabe, o russo, o turco, ou os dialetos de minorias internas, bem como um diálogo sobre as culturas respetivas. Nem sequer se encontra, em países com parte da população negra, o estudo da escravatura e do seu impacto social e económico até hoje, embora sejam dados alguns passos, nos últimos tempos, para a abordagem de questões de igualdade da mulher e de inclusão dos LGBTQ. Nas ruas, é raro encontrar topografia com referências aos fracos e às minorias, ou restaurantes que representem a gastronomia das culturas minoritárias internas, embora também isto venha mudando aos poucos. O desconhecimento do outro é algo que potencia o medo e a exclusão desse outro. 

Além disso, no combate à extrema-direita que já existe e que está por aí, no plano do debate e da participação política, discute-se o que fazer perante alguém que manifeste ideias de ódio ou que seja proponente de ideias de extrema-direita. Há quem defenda a agressão física direta, ou apenas a exclusão da sua participação política, ou ainda a sua participação, mas apenas em debates e em entrevistas, ou até a presença de representantes da extrema-direita em conferências como conferencistas, em nome da liberdade de expressão. O que me parece essencial é o ponto de partida de que essas ideias não são normais nem aceitáveis, mas isso não significa desistir das pessoas. A expressão de pensamento tem limites legais, e é costume a própria constituição de organizações fascistas ser proibida. Por outro lado, denunciar a extrema-direita e combater as suas ideias implica conhecê-la, o que não implica chamá-la para debates - como se defender que os negros são menos pessoas fosse uma simples proposta que se possa fazer e que a audiência aceita ou não num debate, como um "prato normal" no "menu". Quem diz isto normalmente não se sente afetado, por ser branco. E também não são a mesma coisa um manifestante que sai à rua com uma bandeira nazi gritando "morte aos ciganos" e uma pessoa com ideias reacionárias e machistas que escreve textos num certo semanário e que sai à rua para comprar pão sem ameaçar ninguém.

Existem nuances que, muitas vezes, são ignoradas nestes debates sobre a extrema-direita. Além de existirem diversos tipos de pessoas de extrema-direita e diversos graus nas posições que assumem, também existem diversos tipos de tolerância - posso tolerar de forma passiva, sem que isso implique tolerância ativa, isto é, posso permitir que alguém tenha as suas ideias racistas no seu canto, mas recusar dar-lhe palco por não considerar que merece debater comigo. E posso simplesmente não tolerar quem pretende, abertamente, eliminar a própria norma de tolerância, desde que o consiga demonstrar, objetivamente, sendo necessário distinguir entre "the intolerance of those who lie beyond the limits of toleration because they deny toleration as a norm in the first place, and the lack of tolerance of those who do not want to tolerate a denial of the norm" - Rainer Forst, Toleration (vale a pena ler). Além disso, o racismo, o preconceito e o ódio não são mera intolerância: "The racist, therefore, can neither exemplify the virtue of tolerance nor should he be asked to be tolerant; what is necessary is that he overcome his racist beliefs" - idem. Ou seja, se alguém professa ideias racistas, o problema não é a sua intolerância, mas o próprio racismo. Portanto, quando decidimos tolerar, ou não tolerar, essa posição racista não estamos perante o problema de tolerar, ou não tolerar, um ato de intolerância, mas sim um ato de racismo, dispensando a questão de saber se tal ato de racismo traduz a negação da norma de tolerância - não se cai em nenhum paradoxo. 

A meu ver, a mais importante das nuances é que o ser humano não está condenado a ser o que é, é sujeito de mudança. Por isso, sem nunca aceitar as ideias da extrema-direita, é preciso criar condições que permitam a "desradicalização" de quem está na extrema-direita, da mesma maneira que se faz isso, por exemplo, com extremistas religiosos. O próprio estado tem um papel a desempenhar na criação de programas específicos para isso. Existe uma citação significativa de Nelson Mandela: "If you want to make peace with your enemy, you have to work with your enemy. Then he becomes your partner". É evidente que esta máxima carrega consigo três pressupostos: um dos sujeitos tem de ser membro da minoria de que o outro é inimigo; e este outro sujeito, o inimigo, tem de estar disponível para dialogar, ou tornar-se disponível para isso; além disso, o primeiro sujeito tem de estar na mesma condição que o outro, isto é, na mesma posição relativa. O problema é que quem defende ouvir as pessoas de extrema-direita muitas vezes esquece estes três pressupostos.

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publicado às 23:40